Três invernos naquele portão
Desgaste severo na imaginação
Eu via tábuas caindo no chão
Mas só ouvi metal em fricção
Cheiro amargo de café queimado
Canivete gasto no meu casaco
Meu dedo treme, nem sei explicar
O peito esquece como respirar
Nem saiu daquela velha cadeira
Nem mudou a mancha sobre a madeira
Olhos gastos, sem qualquer clarão
Você cresceu, continua sem direção
Nem insultou, nem quis discutir
Nem teve força para reagir
Eu compreendi sem querer aceitar
Já não existia ninguém pra enfrentar
O ódio foi domado
O ódio foi esgarçado
Afiei o punhal e perdi a razão
Anos e anos na mesma prisão
Quem eu caçava já nem lembro
Vivi uma guerra íntima, um tormento!
Trabalho sujo, sem promoção
Pago em cansaço e decepção
Carrego o peso sem receber
Nenhum ódio paga pra viver
Calendário preso em outro ano
Gordura velha manchando minha roupa
Toda noite sem fechar os olhos
Virou poeira grudada na boca
Esperei o teto desabar
Esperei o remorso aparecer
Só o calendário congelado insistia
Em se reviver, em nunca perecer
Não teve queda
Nem teve glória
Muito menos confissão
E nem mesmo julgamento
Só duas vidas consumidas
Por um passado sem pagamento
Afiei o punhal e perdi a razão
Anos e anos na mesma prisão
Quem eu caçava já nem lembro
Vivi uma guerra íntima, um tormento!
Trabalho sujo, sem promoção
Pago em cansaço e decepção
Carrego o peso sem receber
Nenhum ódio paga pra viver