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Sr. Pez

Cassiana Maranha

Mr Peixe

Foi enquanto as pessoas escreviam seus medos em letras miúdas
Foi enquanto eu olhava o papel em branco
Foi ai, nesse momento, que você sussurrou no meu ouvido
Tenho medo de não ser quem você espera
Já entendo agora que apesar de baixa, a tua voz refletia coragem
Ainda bem, de covarde já basta eu
Mas isso de ser covarde eu deixo para um outro poema
É que depois de dias a martelar na minha cabeça
A ideia de te ligar me pareceu a única saída
Por falar nisso, eu acabei de lembrar da menina que atravessa o labirinto
E nem sempre é pela procura da saída
Foi enquanto o ator mais foda de Curitiba
Cantava a capela: Nowhere man, can you see me at all?
Que você me perguntou sobre os poemas que havia visto
A verdade é que eu preferia tuas pernas compridas a passos largos
Ao mesmo tempo que você me falava sobre os morcegos
Ao mesmo tempo que você me apresentava o canto mais feio da bela ilha
Ao mesmo tempo que a tua melanina contrastava com o céu
Ao mesmo tempo que eu te falava sobre o meu Ártico
E isso, do Ártico, só você sabe
Tantas coisas minhas só você sabe porque você é muito do mar
And so am I
Você é corajoso, Mr Peixe
É preciso coragem para abrir a porta de casa
E escancarar o posicionamento caótico dos móveis logo após uma avalanche
Você sabe que não me conhece
Mas sabe também que quer conhecer
E isso deveria bastar
Se não basta, deve ser porque saber da imensidão do mar não te apavora
A mim? Devora
Mas com você eu aprendi que tudo bem ter dúvidas
Nem sempre a vida nos dá um ponto para traçarmos uma reta
Além disso, perderiamos todo o charme das inesperadas curvas
E por falar em inesperadas, que bom é receber notícias suas
Você a contar sobre o seu novo trabalho e sua maré calma
E a perguntar da minha viagem a terra das oportunidades
Tudo isso como se não houvesse um abismo de tempo e espaço entre nós

Doeu pra caralho as pedras de gelo sobre a minha pele na sua partida
E estamos tão carentes de homens como você
Perdoa te falar isso agora
Mas foi o adeus mais sincero que já tive e fico feliz de saber que você se fortaleceu
Ainda mais como homem
Eu sei que você está atento ao mundo
Mas é que os quase 30 me ensinaram que é preciso estilhaçar os medos
Os meus e os dos outros
E talvez pra ti seja meio difícil, mas se prepara
Agora
Você não é o que eu espero
Porque pra mim, você é uma curva
E curva a gente não espera
A gente agradece, obrigada

Sr. Pez

Fue mientras las personas escribían sus miedos en letras pequeñas
Fue mientras yo miraba el papel en blanco
Fue ahí, en ese momento, que susurraste en mi oído
Tengo miedo de no ser quien esperas
Ahora entiendo que a pesar de ser baja, tu voz reflejaba valentía
Menos mal, de cobarde ya tengo suficiente
Pero eso de ser cobarde lo dejo para otro poema
Es que después de días dándole vueltas en mi cabeza
La idea de llamarte me pareció la única salida
Hablando de eso, acabo de recordar a la chica que atraviesa el laberinto
Y no siempre es por buscar la salida
Fue mientras el actor más chido de Curitiba
Cantaba a capela: Nowhere man, can you see me at all?
Que me preguntaste sobre los poemas que habías visto
La verdad es que prefería tus largas piernas a pasos agigantados
Al mismo tiempo que me hablabas sobre los murciélagos
Al mismo tiempo que me mostrabas el rincón más feo de la hermosa isla
Al mismo tiempo que tu melanina contrastaba con el cielo
Al mismo tiempo que te hablaba sobre mi Ártico
Y eso, del Ártico, solo tú lo sabes
Tantas cosas mías solo tú sabes porque eres muy del mar
Y yo también
Eres valiente, Sr. Pez
Se necesita valor para abrir la puerta de casa
Y desordenar el caótico posicionamiento de los muebles justo después de una avalancha
Sabes que no me conoces
Pero también sabes que quieres conocerme
Y eso debería ser suficiente
Si no lo es, debe ser porque saber de la inmensidad del mar no te asusta
¿A mí? Me devora
Pero contigo aprendí que está bien tener dudas
No siempre la vida nos da un punto para trazar una línea recta
Además, perderíamos todo el encanto de las inesperadas curvas
Y hablando de inesperadas, qué bueno es recibir noticias tuyas
Tú contándome sobre tu nuevo trabajo y tu marea tranquila
Y preguntando sobre mi viaje a la tierra de las oportunidades
Todo eso como si no hubiera un abismo de tiempo y espacio entre nosotros

Dolió un chingo las piedras de hielo sobre mi piel en tu partida
Y estamos tan necesitados de hombres como tú
Perdona que te diga esto ahora
Pero fue la despedida más sincera que he tenido y me alegra saber que te has fortalecido
Aún más como hombre
Sé que estás atento al mundo
Pero es que los casi 30 me enseñaron que hay que destrozar los miedos
Los míos y los de los demás
Y tal vez para ti sea un poco difícil, pero prepárate
Ahora
No eres lo que espero
Porque para mí, eres una curva
Y las curvas no se esperan
Se agradecen, gracias

Escrita por: Cassiana Maranha