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Descarada

Cláudio Nucci

Descarada

Descarada é a cara acareada
Com a cara-metade em sua tara
Fico fraco de fraque e de cartola
Não careço por ter caraminhola

Quem mata é capaz de desmatar
Não precisa ser nenhum Deus pra isto
Muita gente que fere, antes, desfere
E depois vai pedir perdão pra cristo

Sinto a farpa quando dedilho a harpa
Solo em sua presença ensolarada
Bailo todas ao som da balalaica
Mostro a prosa mesmo sendo prosaica

Meus desejos desfilam em caravanas
Minha vida navega em caravelas
Carapuça das minhas aduanas
Caramunha das minhas aquarelas

Sinto o mote quando sopro o fagote
Também toco pra quem 'tá na tocaia
No final do arco-íris há um pote
Pro sujeito que não fugiu da raia

Sinto falta de uma flauta doce
Meu chocalho dando uma chacoalhada
Eu não sou picareta, antes foice
É por isso que estou com a cara enxada

Descarada

Descarada es la cara descarada
Con la mitad de la cara en su obsesión
Me siento débil y con sombrero
No necesito tener trucos

Quien mata es capaz de deforestar
No necesita ser ningún Dios para eso
Mucha gente que hiere, antes, desata
Y luego va a pedir perdón a Cristo

Siento la astilla cuando toco el arpa
Solo en tu presencia soleada
Bailo al ritmo de la balalaica
Muestro la prosa aunque sea prosaica

Mis deseos desfilan en caravanas
Mi vida navega en carabelas
La gorra de mis aduanas
El truco de mis acuarelas

Siento la musa cuando soplo el fagot
También toco para quien está al acecho
Al final del arcoíris hay una olla
Para el sujeto que no huyó de la raya

Echo de menos una flauta dulce
Mi sonajero dando sacudidas
No soy un pícaro, sino guadaña
Por eso tengo la cara sudada

Escrita por: Cláudio Nucci / Felipe Cerquize