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The White Rabbit's Funerals II (Straight Line)

Dance Of Days

Os Funerais do Coelho Branco II (em Linha Reta)

Sartre da São João, hálito de bebida barata
e meio Vila Rica amassado no bolso.
Devorador de memórias de prostitutas e arruinados,
o doce prazer dos últimos trocados.
Hoje escreverei o livro de toda minha vida,
e trocarei os manuscritos por beijos e carinhos pagos.
Foi tudo um engano.
Um enorme engano do acaso.
E acabei aqui, vencedor mais derrotado, de troféu entre os braços,
sem ninguém pra me chamar de herói.
Velando meus coelhos brancos.
(...)
As pessoas não ficam, sempre passam,
evitam contato com o homem e seus desencantos.
E eu assisto tudo, como um filme de quinta categoria,
sem saber porque faço ou falo coisas.
Em um cinema sujo e triste, as mulheres me cospem, o coração desiste
e deixo o orgulho para as moscas.
(...)
Um brinde então, a esse odor de quarto úmido,
a televisão que não sintoniza.
Um brinde ao Domingo, ao tédio, a esse colchão imundo,
onde casais feios treparam por dias.
Eu sou herói de ninguém e quero um quarto sem espelhos.
Um corpo sem nome pra abraçar com os joelhos.
Porque hoje sou o que sou, o leão covarde da boca do lixo
na estrada de tijolos mais suja e cheia de bichos.
Decorei poesias, li Kierkegaard, Nietzsche até o raiar do dia.
E só conheci mesmo na vida os demônios sujos que não conhecia.
(...)
Verdade Fernando, jamais conheci mesmo quem levasse porrada
e todos que conheci me chutaram mesmo caído à calçada.
Holden estou aqui, de esperanças enterradas.
Atravesso, atravesso a estrada e nunca acontece nada... nada.

The White Rabbit's Funerals II (Straight Line)

Sartre from São João, breath of cheap drink
and half Vila Rica crumpled in the pocket.
Devourer of memories of prostitutes and ruined,
the sweet pleasure of the last coins.
Today I will write the book of my whole life,
and I will exchange the manuscripts for paid kisses and caresses.
It was all a mistake.
A huge accident of chance.
And I ended up here, winner more defeated, with a trophy in my arms,
with no one to call me a hero.
Watching over my white rabbits.
(...)
People don't stay, they always pass by,
avoiding contact with the man and his disenchantments.
And I watch everything, like a fifth-rate movie,
without knowing why I do or say things.
In a dirty and sad cinema, women spit on me, the heart gives up
and I leave pride to the flies.
(...)
A toast then, to this odor of damp room,
to the TV that doesn't tune in.
A toast to Sunday, to boredom, to this filthy mattress,
where ugly couples fucked for days.
I'm nobody's hero and I want a room without mirrors.
A body with no name to embrace with my knees.
Because today I am what I am, the cowardly lion from the trash mouth
on the dirtiest brick road full of bugs.
I memorized poems, read Kierkegaard, Nietzsche until dawn.
And I only really met in life the dirty demons I didn't know.
(...)
Truth Fernando, I never really knew anyone who took a beating
everyone I met kicked me even when I was down on the sidewalk.
Holden I'm here, with buried hopes.
I cross, I cross the road and nothing ever happens... nothing.

Escrita por: Nene Altro