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El Hombre de la Caja

Deilson Pessoa

O Homem da Caixa

Sonhei que eu era um samelo
De couro liso e fivela dourada
Com sola resistente em látex
E o preço ainda preso num durex

Pessoas que meu número servia
Calçavam confortadas, satisfeitas
Pessoas me pisavam agradecidas
E eu até que me sentia útil

Sonhei que eu estava numa caixa
Numa caixa de sapatos
De sapatos engraxados
Mas não tinha nada de engraçado nisso

Não sei se vergonha ou por ofício
Corri para debaixo da cama
Sapatos quando não estão em uso
Se encontram em lugares obscuros

A mãe estranhou minha demora
E foi abrindo a porta do quarto
Olhou resignada aquela cena
Seu filho transformado em... sapatos!

Nunca esquecerei aquele sonho que eu tive um dia

Essa era agora minha nova vida,
Esse era enfim o meu destino
Tudo se ajustava passo a passo sem aperto
Eu me adequava com efeito ao figurino

Mas na minha consciência de sapato
Uma coisa vagamente me dizia
Que eu era gente, eu não era um samelo
E acordei calçado em meu chinelo

Sonhei que eu estava numa caixa
Numa caixa de sapatos
De sapatos engraxados
Mas não tinha nada de engraçado nisso

El Hombre de la Caja

Soñé que era un zapato
De cuero liso y hebilla dorada
Con suela resistente de látex
Y el precio aún pegado con cinta adhesiva

Personas a las que mi número les servía
Calzaban cómodas, satisfechas
Personas me pisaban agradecidas
Y yo me sentía útil

Soñé que estaba en una caja
En una caja de zapatos
De zapatos lustrados
Pero no había nada gracioso en eso

No sé si por vergüenza o por oficio
Corrí debajo de la cama
Los zapatos cuando no se usan
Se guardan en lugares oscuros

Mi madre extrañaba mi demora
Y abrió la puerta del cuarto
Miró resignada aquella escena
¡Su hijo transformado en... zapatos!

Nunca olvidaré ese sueño que tuve un día

Esta era ahora mi nueva vida
Este era finalmente mi destino
Todo encajaba paso a paso sin apretar
Me adaptaba efectivamente al vestuario

Pero en mi conciencia de zapato
Algo vagamente me decía
Que yo era gente, no un zapato
Y desperté calzado en mis pantuflas

Soñé que estaba en una caja
En una caja de zapatos
De zapatos lustrados
Pero no había nada gracioso en eso

Escrita por: Deilson Pessoa