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Legado

Dulce Nunes

Legado

Que lembrança darei ao país que me deu
Tudo que lembro e sei, tudo quanto senti
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
Minha incerta medalha, e a meu nome se ri

E mereço esperar mais do que os outros, eu
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu
A vagar, taciturno, entre o talvez e o se

Não deixarei de mim nenhum canto radioso
Uma voz matinal palpitando na bruma
E que arranque de alguém seu mais secreto espinho

De tudo quanto foi meu passo caprichoso
Na vida, restará, pois o resto se esfuma
Uma pedra que havia em meio do caminho

Legado

Qué recuerdo dejaré al país que me dio
Todo lo que recuerdo y sé, todo lo que sentí
En la noche sin fin, breve el tiempo olvidó
Mi incierta medalla, y a mi nombre se ríe

Y merezco esperar más que los demás, yo
Tú no me engañas, mundo, y no te engaño a ti
Estos monstruos actuales, no cautivan a Orfeo
Vagando, taciturno, entre el quizás y el si

No dejaré de mí ningún canto radiante
Una voz matutina palpita en la neblina
Y arranca de alguien su más secreta espina

De todo lo que fue mi paso caprichoso
En la vida, quedará, pues el resto se desvanece
Una piedra que había en medio del camino

Escrita por: Carlos Drummond de Andrade / Dulce Nunes