Ulisses
O mito é o nada que é tudo
O mesmo sol que abre os céus é
Um mito brilhante e mudo
O corpo morto de Deus
Vivo e desnudo.
Este que aqui aportou
Foi por não ser existindo
Sem existir nos bastou
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assima lenda se escorre
A entrar na realidade
E a fecundá-la recorre,
Em baixo, a vida,
Metade de nada,
Morre.
Ulises
El mito es la nada que lo es todo
El mismo sol que abre los cielos es
Un mito brillante y mudo
El cuerpo muerto de Dios
Vivo y desnudo.
Este que aquí llegó
Fue por no ser existiendo
Sin existir nos bastó
Por no haber venido fue venido
Y nos creó.
Así la leyenda se desliza
Para entrar en la realidad
Y fecundarla corre,
Abajo, la vida,
Mitad de nada,
Muere.
Escrita por: Fernando Pessoa / Mário Laginha