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Vida Brava

Gildo de Freitas

Vida Brava

Minha mulher é alta magricela
Não me roubaram por ser muito feia
Pobre coitada de passar miséria
Anda acordada, mas sempre vareia
Não tem mais força para ralhar com o filho
A sua voz está fraquinha e rouca
Lavar pra fora ela também não pode
As suas forças estão muito pouca
A criançada lá da vizinhança
Já chamam ela de magrela louca
Sou um marido bastante infeliz
Ela só tem é pescoço e nariz
E não tem um caco de dente na boca

Já somos pais de doze filhinhos
Tem dez machinhos tem duas prendas
As roupas delas são todas floreadas
Porque são feitas de várias fazendas
A mulher corta da roupinha velha
Vai ajeitando e depois remenda
Agora sim estou vivendo apertado
Estou vendo o jeito que vou ser multado
Porque não fiz declarações de renda

(É brabo, mas é queijo, dizia uma velha
comendo um pedaço de sabão)
Minhas crianças que vão pro colégio
Não levam nada pra sua merenda
Porque eu de tanto me atrasar com as contas
Estou de mal com o dono da venda
E a rapadura que eu comprei fiado
Eu não paguei pro dono da tenda
Minha mulher toda noite sonha
Que ai promessa da tal de cegonha
E vai vir mais cinco pra nóis de encomenda

(Para com isso, mulher véia)

Vida Brava

Mi mujer es alta y flaca
No me casé con ella por ser muy fea
Pobre desdichada, pasando penurias
Está despierta, pero siempre cambia de opinión
Ya no tiene fuerzas para regañar al hijo
Su voz está débil y ronca
Tampoco puede lavar la ropa afuera
Sus fuerzas están muy agotadas
Los niños del vecindario
Ya la llaman la loca flaca
Soy un marido bastante infeliz
Ella solo tiene cuello y nariz
Y no tiene ni un diente en la boca

Ya somos padres de doce hijos
Diez varones y dos niñas
Sus ropas son todas floreadas
Porque están hechas de diferentes telas
Mi mujer corta de la ropa vieja
La arregla y luego la remienda
Ahora sí que estoy apretado
Viendo cómo me van a multar
Por no haber hecho la declaración de impuestos

(Es difícil, pero es queso, decía una anciana
comiendo un pedazo de jabón)
Mis hijos que van a la escuela
No llevan nada para su almuerzo
Porque me he atrasado tanto con las cuentas
Que estoy peleado con el dueño de la tienda
Y el dulce de panela que compré fiado
No lo pagué al dueño de la tienda
Mi mujer todas las noches sueña
Con la promesa de la cigüeña
Y van a venir cinco más para nosotros por encargo

(Deja de eso, mujer vieja)

Escrita por: Gildo De Freitas