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Disputa

Iara Ira

Contenda

Sou a dobra de mim sobre mim mesmo
Nesse afã de ganhar de quem me ganha
Tento andar no meu passo e vou a esmo
Tento pegar meu pulso e ele me apanha
Eita, sombra rival que me acompanha
Artimanha de encosto malfazejo

Rodopiei, beijei o chão, cambei pra cá
Meu mestre rei foi Salomão, camará

Dou um talho em meu próprio sentimento
Pra que o mundo fulgure na clareira
Que esse nervo me aviva o sofrimento
Que esse olho é motivo de cegueira
Ê, presença difusa, desordeira
Giro de furacão sem epicentro

Desafiei, puxei facão, ponguei pra lá
Vazei no peito esse intrujão, camará!

E vem pernada aí
Vem não, foi desvario
E vem navalha aí
Vem não, foi calafrio
A roda vai abrir
Quando eu cair
Por um fio

Camará, camará

Meu sangue arredio, arrevesado
Arranco e derramo em oferenda
Mas não ponho fim nessa contenda
Com meu coração esconjurado

Camará, camará, camará

Sei de um rosto escondido no espelho
Bem depois do cristal iridescente
Entro no meu juízo e destrambelho
Entro no meu caminho e passo rente
Eita, angústia que vai minando a gente
Capoeira contra Pedro-Botelho

Serpenteei, botei pressão, varei o ar
Parei no meio do desvão, camará

E vem pernada aí
Vem não, foi desvario
E vem navalha aí
Vem não, foi calafrio
A roda vai sumir
Quando eu cair
No vazio

Camará, camará, camará

Meu corpo erradio, arrebatado
Debulho na boca da moenda
Mas não boto fim nessa contenda
Com meu coração esconjurado
Camará

Maculelê não me mate o homem
Ele é meu irmão, não me mate o homem

Maculelê não me mate o homem
Que ele é cristão não me mate o homem

Maculelê não me mate o homem
Ele é meu amigo, não me mate o homem

Maculelê não me mate

Disputa

Soy la doblez de mí sobre mí mismo
En este afán de ganarle a quien me gana
Intento caminar a mi ritmo y voy a la deriva
Intento agarrar mi pulso y él me atrapa
¡Caray, sombra rival que me acompaña
Artimaña de ente malévolo

Di vueltas, besé el suelo, me incliné hacia acá
Mi maestro rey fue Salomón, camarada

Le doy un tajo a mi propio sentimiento
Para que el mundo brille en la claridad
Que este nervio me avive el sufrimiento
Que este ojo es motivo de ceguera
¡Eh, presencia difusa, desordenada
Giro de huracán sin epicentro

Desafié, saqué machete, me fui para allá
Vacíe en el pecho a este impostor, camarada!

Y viene el golpe por ahí
No viene, fue desvarío
Y viene la navaja por ahí
No viene, fue escalofrío
La rueda se abrirá
Cuando caiga
Por un hilo

Camarada, camarada

Mi sangre arisca, arisca
Arranco y derramo en ofrenda
Pero no pongo fin a esta disputa
Con mi corazón conjurado

Camarada, camarada, camarada

Sé de un rostro escondido en el espejo
Muy detrás del cristal iridiscente
Entro en mi juicio y me desbarato
Entro en mi camino y paso rozando
¡Caray, angustia que va minando a la gente
Capoeira contra Pedro-Botelho

Serpenteé, puse presión, atravesé el aire
Me detuve en medio del abismo, camarada

Y viene el golpe por ahí
No viene, fue desvarío
Y viene la navaja por ahí
No viene, fue escalofrío
La rueda va a desaparecer
Cuando caiga
En el vacío

Camarada, camarada, camarada

Mi cuerpo errante, arrebatado
Desmenuzo en la boca de la molienda
Pero no pongo fin a esta disputa
Con mi corazón conjurado
Camarada

Maculelê, no mates al hombre
Él es mi hermano, no mates al hombre

Maculelê, no mates al hombre
Que él es cristiano, no mates al hombre

Maculelê, no mates al hombre
Él es mi amigo, no mates al hombre

Maculelê, no mates al hombre

Escrita por: Guinga / Thiago Amud