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Memorias Póstumas

Jão

Memórias Póstumas

Todo dia eu passo na sua casa
Eu não vejo graça mais em nada
Quando ameaça a madrugada, eu volto a sair
O sete-quatro-onze me espera
Mas vejo fumaça da janela
Tem alguém aí na sua sala? Não dá pra ver daqui
Eu escalo os andares sujos do seu condomínio
Subo com minhas mãos sobre os tijolos
Mas eu escorrego, e é difícil
Saber que a última coisa que eu vi dali foram seus olhos

Sinto o ar me levando ao chão
Sobre os meus ossos espalhados no vão
É poético e engraçado
Que eu tenha tido tempo de pensar em te pedir desculpas
Pela inconveniência
De escorregar no vento e morrer em frente à sua casa

Tente não ser o primeiro
A roer as frias carnes do meu corpo passageiro
Não quero discursos prontos
Só me leve uma foto do seu rosto no enterro (ah)
E me deixe levar pra onde quer que eu vá
Sua lembrança (ah)
Vim do lado de lá, eu preciso de alguém
Pra me ensinar como a vida avança

Sinto o ar me levando ao chão
Sobre os meus ossos espalhados no vão
É poético e engraçado
Que eu tenha tido tempo de pensar em te pedir desculpa (ah)
Pela inconveniência
De escorregar no vento e morrer em frente à sua casa

A sete palmos, com tempo a pensar
Remontei minhas memórias
Eu vi as aves e os dinossauros
Os primatas se espantando com os astros
Busquei nas pedras e nas palavras
E aprendi, enfim, o significado
O fim nasce no ventre
Desde que o mundo tinha só dentes de leite
Escrevo à noite, e a luz se apaga
E eu me despeço, então, sem deixar nada
(Nada, nada, nada)

Memorias Póstumas

Todos los días paso por tu casa
Ya no le encuentro gracia a nada
Cuando amenaza el amanecer, vuelvo a salir
El siete-cuatro-once me espera
Pero veo humo en la ventana
¿Hay alguien ahí, en tu sala? Desde aquí no alcanzo a verlo
Escalo los pisos sucios de tu edificio
Subo aferrándome a los ladrillos
Pero resbalo, y es difícil
Saber que lo último que vi desde allí fueron tus ojos

Siento el aire llevándome hacia el suelo
Con mis huesos esparcidos en el vacío
Es poético y hasta gracioso
Haber tenido tiempo de pensar en pedirte perdón
Por la inconveniencia
De resbalar con el viento y morir frente a tu casa

Trata de no ser el primero
En roer la fría carne de mi cuerpo pasajero
No quiero discursos ensayados
Solo llévame una foto de tu rostro al funeral (ah)
Y déjame ir hacia donde tenga que ir
Con tu recuerdo (ah)
Vengo del otro lado, necesito que alguien
Me enseñe cómo sigue la vida

Siento el aire llevándome hacia el suelo
Con mis huesos esparcidos en el vacío
Es poético y hasta gracioso
Haber tenido tiempo de pensar en pedirte perdón (ah)
Por la inconveniencia
De resbalar con el viento y morir frente a tu casa

A siete palmos bajo tierra, con tiempo para pensar
Reconstruí mis memorias
Vi a las aves y a los dinosaurios
A los primates maravillarse con las estrellas
Busqué entre las piedras y las palabras
Y por fin entendí su significado
El final nace en el vientre
Desde que el mundo apenas tenía dientes de leche
Escribo de noche, y la luz se apaga
Entonces me despido sin dejar nada
(Nada, nada, nada)

Escrita por: Jão