Ancestralizou (Interlúdio)
Eu entrava num lugar que tinha vários rios feitos de sal
O grande espírito com a minha própria voz
Me dizia que era proteção
Ele me perguntava se eu tava disposta a pagar com a minha vida pelo mundo novo
Eu olhava pra uma árvore, tocava a raiz e respondia que sim
As raízes me cobriam que nem naquele filme
Todas as energias transformadas em borrões
Como se eu tivesse gasolina numa poça d’água
Eu tava flutuando que nem eu me vi flutuando na água
Quando eu tava grávida
Mas dessa vez, flechas e balas tentavam me acertar
Me mataram com tudo que é colonial
Depois queriam que eu tirasse minha própria vida
Quando eu cobrei todo preço e o peso
Daquela antiga dívida, que todo mundo quer esquecer
É mais fácil falar que eu morri, do que falar que eu sobrevivi a floresta morrendo
A escravidão, a cidade
Avançando e a favela crescendo
Eu sou indígena, indígena favelada
Eu não vou me conter com a migalha
Eu não vou me contentar nunca com o descaso, com
Fome, com a margem de um sistema que não escolhemos
Que fomos impostos, invadidos
Roubados
Todo esse ouro, toda essa riqueza
Tudo cheio de sangue, tudo construído em cima de
Nossos corpos
Mainha me ensinou a ouvir e me esconder
E a favela me ensinou a revidar
Fernanda kae
Eu tava rezando na mata, rezando pra não ver um corpo boiando na água
Eu não tava onde você tava
Eu tava sendo escravizada, me perdoa
Eu tava sendo escravizada
Me estupraram, me perdoa
Me roubaram
Eu quero voltar
Mainha, o problema foi tá colonizada demais
Foi ter se escondido demais
Eu sonhei
Era tão lindo o mundo que a gente construiu junto
Vamo cantar junto de novo, vamo plantar tudo de novo
Lutar por aquele mundo, que a gente respira junto, que a gente existe
Ancestralizó (Interludio)
Yo entraba a un lugar que tenía varios ríos hechos de sal
El gran espíritu con mi propia voz
Me decía que era protección
Me preguntaba si estaba dispuesta a pagar con mi vida por el mundo nuevo
Yo miraba a un árbol, tocaba la raíz y respondía que sí
Las raíces me cubrían como en esa película
Todas las energías transformadas en manchas
Como si tuviera gasolina en un charco de agua
Estaba flotando como me vi flotando en el agua
Cuando estaba embarazada
Pero esta vez, flechas y balas intentaban darme
Me mataron con todo lo colonial
Después querían que me quitara la vida
Cuando cobré todo el precio y el peso
De esa antigua deuda, que todos quieren olvidar
Es más fácil decir que morí, que decir que sobreviví a la selva muriendo
La esclavitud, la ciudad
Avanzando y la favela creciendo
Soy indígena, indígena de favela
No me voy a conformar con las migajas
Nunca me voy a contentar con el desprecio, con
Hambre, con el margen de un sistema que no elegimos
Que nos impusieron, invadidos
Robados
Todo ese oro, toda esa riqueza
Todo lleno de sangre, todo construido sobre
Nuestros cuerpos
Mainha me enseñó a escuchar y a esconderme
Y la favela me enseñó a responder
Fernanda kae
Estaba rezando en la selva, rezando para no ver un cuerpo flotando en el agua
No estaba donde tú estabas
Estaba siendo esclavizada, perdóname
Estaba siendo esclavizada
Me violaron, perdóname
Me robaron
Quiero volver
Mainha, el problema fue estar colonizada de más
Fue haberme escondido de más
Soñé
Era tan lindo el mundo que construimos juntos
Vamos a cantar juntos de nuevo, vamos a plantar todo de nuevo
Luchar por ese mundo, que respiramos juntos, que existimos
Escrita por: Kaê Guajajara