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Garabatos

Kristoff Silva

Rabiscos

Uma menina pequena chegou pra mim
E me pediu pra dizer que palavra ela pôs no papel e nada!

Uma porção de rabiscos aqui e ali ao léu e só
Eu ponderei que aquilo não tinha sentido nenhum

Ela falou: "não pode ser!"
"Gente grande sabe ler!"
"Fala o quê que é!"

Logo vi que era bom eu mudar de tom
Falei, então: "isso é o anoitecer"

Ela disse "eu tinha certeza!"
"Minha noite é a noite mais linda"
"Olha a chuva de estrela que vem"
"No castelo não tem luz"

A artesã dos rabiscos sorriu pra mim
E tudo em volta de nós revelou seu inteiro teor: Palavra

Quando a palavra primeira no escuro fez a luz
Foi tanta estrela dançando e riscando a lisura do céu

E a menina eu vi ali
Ela perguntou pra mim: "que foi?"
"Pára de sonhar!"

"Olha que eu consigo ler a sua mão"
"Destino bom"
"Vida longa pra você e eu."

Fui olhando meus próprios rabiscos
Onde o tempo roçou minha pele
Segurando nas mãos uma ausência
A palavra falava comigo

Segurando nas mãos o silêncio
A palavra mostrou seu avesso
A palavra impossível
A palavra noturna
A palavra calada
Quem dirá?

Garabatos

Una niña pequeña se acercó a mí
Y me pidió que dijera qué palabra había puesto en el papel y nada

Un montón de garabatos aquí y allá al azar y solo
Reflexioné que eso no tenía ningún sentido

Ella dijo: '¡no puede ser!'
'¡La gente grande sabe leer!'
'¡Dime qué es!'

Pronto vi que era mejor cambiar de tono
Entonces dije: 'esto es el anochecer'

Ella dijo '¡tenía certeza!'
'Mi noche es la más hermosa'
'Mira la lluvia de estrellas que viene'
'En el castillo no hay luz'

La artesana de los garabatos me sonrió
Y todo a nuestro alrededor reveló su verdadero significado: Palabra

Cuando la primera palabra en la oscuridad hizo la luz
Fue tanta estrella bailando y rayando la lisura del cielo

Y vi a la niña allí
Me preguntó: '¿qué pasa?'
'¡Deja de soñar!'

'Mira que puedo leer tu mano'
'Destino bueno'
'Vida larga para ti y para mí'

Miré mis propios garabatos
Donde el tiempo rozó mi piel
Sosteniendo en mis manos una ausencia
La palabra hablaba conmigo

Sosteniendo en mis manos el silencio
La palabra mostró su reverso
La palabra imposible
La palabra nocturna
La palabra callada
¿Quién lo dirá?

Escrita por: Bernardo Maranhão / Kristoff Silva