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Garoto/ Mi Chico/ Poderes Podridos (popurrí)

Marlene

Garoto/ Meu Guri/ Podres Poderes (pot-pourri)

Garoto nascido em barraco de zinco
Do morro sem água de barro batido
Que veste farrapo de roupa emprestada
Que come alimento de feira acabada

Garoto que pega rabeira de bonde
Que corre, se esconde do homem fardado
Garoto que dorme sonhando pecado
E ler a cartilha do homem marcado

Garoto que furta o comando da fome
Que atende por Zé, por Tião, qualquer nome
Garoto promessa de bamba no duro
Garoto manchete de crime futuro

Bem outro seria seu negro destino
Que o morro onde vive tivesse outro norte
Enquanto és criança, garoto, menino
Enquanto é possível mudar sua sorte

Olha aí
Ai, o meu guri, olha aí
Olha aí
É o meu guri

Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar

Como fui levando, não sei lhe explicar
Fui assim levando, ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá

Olha aí
Olha aí
Olha aí
Ah, meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri

E ele chega
Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar

Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar

Olha aí
Ah, o meu guri
Olha aí, olha aí, é o meu guri

E ele chega
Chega no morro com o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror

Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ensinar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar

Olha aí
Ah, o meu guri
Olha aí, olha aí, é o meu guri

E ele chega
Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais

O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço
Que ele disse que chegava lá

Olha aí
Olha aí
Olha aí, ai, o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
Meu guri
É o meu guri
É o meu guri
Olha aí o meu guri

Saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Morrer e matar de fome
De raiva e de sede
São tantas vezes
Gestos naturais

Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo
Daqueles que velam pela cultura do mundo
Indo e mais fundo
Tins e bens e tais

Será que nunca faremos senão confirmar
Na incompetência da América católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que essa minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir
Por mais zil anos

Será, será, que será?
Que será, que será?

Garoto/ Mi Chico/ Poderes Podridos (popurrí)

Chico nacido en un barraco de zinc
Del morro sin agua de barro batido
Que viste harapos de ropa prestada
Que come alimentos de feria acabada

Chico que se cuelga del tranvía
Que corre, se esconde del hombre uniformado
Chico que duerme soñando pecados
Y lee la cartilla del hombre marcado

Chico que roba para calmar el hambre
Que responde por José, por Tito, cualquier nombre
Chico promesa de samba en lo duro
Chico titular de un crimen futuro

Sería muy diferente su destino negro
Si el morro donde vive tuviera otro rumbo
Mientras seas niño, chico, muchacho
Mientras sea posible cambiar tu suerte

Mira allá
Ay, mi chico, mira allá
Mira allá
Es mi chico

Cuando, señor, nació mi hijo
No era el momento para que naciera
Ya nació con cara de hambre
Y yo no tenía ni nombre para darle

Cómo lo llevé, no sé explicarte
Así lo llevé, él me llevaba
Y en su niñez un día me dijo
Que llegaría lejos

Mira allá
Mira allá
Mira allá
Ah, mi chico, mira allá
Mira allá, es mi chico

Y él llega
Llega sudado y veloz del trabajo
Y siempre trae un regalo para sorprenderme
Tantas cadenas de oro, señor
Que necesitaría un cuello para ponerlas

Me trajo una bolsa ya con todo dentro
Llave, libreta, rosario y amuleto
Un pañuelo y un montón de documentos
Para finalmente identificarme

Mira allá
Ah, mi chico
Mira allá, mira allá, es mi chico

Y él llega
Llega al morro con el cargamento
Pulsera, cemento, reloj, neumático, grabadora
Rezo hasta que llegue aquí arriba
Esta ola de robos es un horror

Yo lo consuelo, él me consuela
Lo pongo en mi regazo para que me enseñe
De repente despierto, miro a un lado
Y el maldito ya se fue a trabajar

Mira allá
Ah, mi chico
Mira allá, mira allá, es mi chico

Y él llega
Llega estampado, titular, retrato
Con los ojos vendados, leyenda y las iniciales
No entiendo a esta gente, señor
Haciendo tanto alboroto

El chico en el campo, creo que está riendo
Creo que está hermoso, hablando sin parar
Desde el principio, no dije, señor
Que él dijo que llegaría lejos

Mira allá
Mira allá
Mira allá, ay, mi chico, mira allá
Mira allá, es mi chico
Mi chico
Es mi chico
Es mi chico
Mira allá mi chico

La nostalgia es ordenar la habitación
Del hijo que ya murió

Mientras los hombres ejercen
Sus poderes podridos
Morir y matar de hambre
De rabia y de sed
Son tantas veces
Gestos naturales

Quiero acercar mi canto vagabundo
A aquellos que velan por la cultura del mundo
Yendo más profundo
Cosas y bienes y demás

¿Será que nunca haremos más que confirmar
La incompetencia de América católica
Que siempre necesitará de ridículos tiranos
Será, será, que será?
Que será, que será?
¿Será que esta estúpida retórica mía
Tendrá que sonar, tendrá que escucharse
Por más mil años?

Será, será, que será?
Que será, que será?

Escrita por: Caetano Veloso / Chico Buarque / Jacobina / Murillo Latini