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Madera Seca

Matheus Pimentel Nunes

Lenha Seca

Sou lenha seca, cerne antigo endurecido
Alma silente que, no pago, enraizou!
Cruzei invernos e vi campos florescidos
Nessa existência, onde o tempo me moldou!

Ergui meus galhos para o céu dos descampados
Topei os ventos que chegaram de roldão!
E criei casca para o golpe do machado
E aprofundei minhas raízes nesse chão!

Carrego o tombo na vertigem da memória
O vai-e-vem da dentição do traçador!
Sangrando a seiva, começando a nova história
Numa estirada demarcando o corredor!

Eu já fui sombra, fui madeira, fui divisa
Hoje sou lenha a consolar um rancho só!
Pois seja terra, seja areia ou mesmo cinza
No fim do jogo, tudo um dia vai ser pó!

Sou lenha seca no galpão envelhecido
Já fui palanque, poste e trama de coxilha
Contendo touros, entre choques e mugidos
A prenunciarem movimentos de novilhas!

Veio a lavoura unificar as invernadas
E desmanchar, pra sempre, os velhos aramados
Erguendo pilhas dessas tramas falquejadas
E dos palanques, descartando os estragados!

Sou lenha seca, nesse estágio derradeiro
Para aquecer algum campeiro como eu
Que ainda resta, num galpão sem companheiros
Lembrando um tempo que, faz tempo, se perdeu!

Madera Seca

Soy madera seca, núcleo antiguo endurecido
Alma silenciosa que, en el pago, echó raíces!
Cruzé inviernos y vi campos florecidos
En esta existencia, donde el tiempo me moldeó!

Levanté mis ramas hacia el cielo despejado
Enfrenté los vientos que llegaron de golpe!
Y creé corteza para el golpe del hacha
Y profundicé mis raíces en este suelo!

Cargo la caída en la vertiginosa memoria
El vaivén de la dentición del trazador!
Sangrando la savia, comenzando la nueva historia
En una estirada marcando el corredor!

Ya fui sombra, fui madera, fui frontera
Hoy soy leña para consolar un rancho solo!
Porque sea tierra, sea arena o incluso ceniza
Al final del juego, todo un día será polvo!

Soy madera seca en el galpón envejecido
Ya fui palenque, poste y trama de llanura
Conteniendo toros, entre choques y mugidos
Anunciando movimientos de novillas!

Vino la cosecha a unificar los invernaderos
Y deshacer, para siempre, los viejos cercados
Levantando pilas de esas tramas desgastadas
Y de los palenques, desechando los dañados!

Soy madera seca, en este estado final
Para calentar a algún gaucho como yo
Que aún queda, en un galpón sin compañeros
Recordando un tiempo que, hace tiempo, se perdió!