O Espantalho
Eu sou a figura do velho espantalho
Por bretes e atalhos a vida me esquece
Sou feito de trapos
O céu é meu teto
E o filho dos netos já não me conhece
Eu sou a esperança da terra lavrada
Vigília velada ao broto do grão
Eu sou um amuleto, um quebranto, um bendito
Vagueio infinitos fincado no chão
No mundo encantado do piá guerreiro
Fui alvo certeiro pra seus bodocaços
Brinquei com os ventos
Ouvi confidências, chorei as ausencias
Não tive cansaços
Sonhei com as estrelas, namorei as luas
Em rondas charruas de inverno e verão
Me deram guarida as noites viúvas
E com a água da chuva fiz meu chimarrão
E com a água da chuva fiz meu chimarrão
Hoje a traça do tempo, roeu minha estampa
Não há mais nesta pampa, meu rude semblante
Não tive rebentos de razão ou rebanhos
Fiquei nos antanhos com um tempo distante
Quando a terra rachar e a semente morrer
O fruto não nascer e a paisagem mudar
Neste mar de venenos e mil defensivos
Pra espantalhos vivos cederei meu lugar
Eu sou a figura do velho espantalho
Eu sou a figura do velho espantalho
El Espantapájaros
Soy la figura del viejo espantapájaros
Por trampas y atajos la vida me olvida
Estoy hecho de trapos
El cielo es mi techo
Y el hijo de los nietos ya no me reconoce
Soy la esperanza de la tierra labrada
Vigilia velada al brote del grano
Soy un amuleto, un quebranto, un bendito
Vago infinitos clavado en el suelo
En el mundo encantado del niño guerrero
Fui blanco certero para sus bodoques
Jugué con los vientos
Escuché confidencias, lloré las ausencias
No tuve cansancios
Soñé con las estrellas, cortejé a las lunas
En rondas charrúas de invierno y verano
Las noches viudas me dieron cobijo
Y con el agua de la lluvia hice mi mate
Y con el agua de la lluvia hice mi mate
Hoy la polilla del tiempo, royó mi estampa
Ya no hay en esta pampa, mi rudo semblante
No tuve descendencia de razón o rebaños
Quedé en los antaños con un tiempo lejano
Cuando la tierra se agriete y la semilla muera
El fruto no nazca y el paisaje cambie
En este mar de venenos y mil defensivos
Para espantapájaros vivos cederé mi lugar
Soy la figura del viejo espantapájaros
Soy la figura del viejo espantapájaros
Escrita por: Alberto Medeiros / Wilson Tubino