Nunca Mais Vendo Cavalos
Um dia eu vendi o meu cavalo
Foi num domingo, nessas voltas de rodeio
Eu garboso, bem faceiro
Vinha com o pingo à lo largo
Me ofereceram um trago, e seguimo ali proseando
Logo vieram ofertando uns troco no meu picasso
Era lustroso o bagual
Calmo como chirca em barranca
Mansidão não há quem compra, disse um velho paisano
Largaram uns troco no pano
E de primeira eu refuguei
Depois logo pensei
Hão de cuidar do meu pingo, eu nunca fui de apego
O meu rancho é a solidão
Ainda dei um xergão, e vendi o meu velho amigo
Quando voltava pras casa já meio curando trago
Fui lembrando das andança que fizemo pelo pago
Lembrei até d'uma noite que se fomo numa barranca
Por causa de uma potranca
O picasso enlouqueceu
Depois obedeceu, e voltou à compostura
São coisas da criatura, da natureza do bicho
Eu sei bem como é isso
Comigo se assucedeu
Mas eu já tinha vendido, nada mais adiantava
A vida continuava, quantos já venderam cavalos?
Uns bons, outros malos, mas é coisa da tradição
Depois pegamo outro potro, domamo, e mais um tá pronto
Prás lide de precisão
E assim se passaram os anos, e nunca mais vi o picasso
Mas ainda tinha lembrança, dessas festa campeira
Debaixo de uma figueira
Nós posamos prum retrato
Eu virado só em dente
Tamanha felicidade
E ele bem alinhado, com o pescoço arrolhado
Mostrando garbosidade
E o tempo foi passando, eu segui domando potros
Mas um deu pior que o outro
Nunca mais tirei pra laço
Lembrava do meu picasso
Manso e bom de função
Trazia ele na mão, nunca me refugou
Desde o dia que chegou, potranco, bem ajeitado
Se acostumou do meu lado, vivendo ali no galpão
A vida é cerca tombada
Quando se sente saudade, dói uma barbaridade
O coração em segredo, às vezes, marca no peito
Qual roseta nas virilha
Não fica bem pra um farroupilha
Ter saudade de um cavalo
Que jeito se vai chorar, e são coisa de índio macho
Sentimento é um relaxo
Difícil de aquerenciar
Mas o tempo vem solito, não traz amadrinhador
Num dia desses de inverno
Juntando geada no pala
Eu vinha nos corredor, pensando nas coisas da vida
Foi quando vi um cavalo, magro, ali atirado
Junto à cerca caída
Fui chegando mais pra perto, daquele couro jogado
Os olho, perdido e triste
Me perguntei
Qual existe gente mala nesses mundo
Pra atirar assim um crinudo
Pra morrer à própria sorte?
Pedi licença pra morte e me cheguei sem alarde
Eu não creio em divindade, mas o milagre aconteceu
Ali na beira da cerca, quando me olhou com tristeza
Na hora tive a certeza
Que aquele pingo era meu
Levei ele pro meu rancho tratei, curei os bichado
Dei bóia e fique do lado
Até ele melhorá
Perdão, meu picasso amigo, agora ficas comigo
Não te vendo nunca mais
Por mim pouco importa
Se já não me serves pra lida
Aqui será tua vida
Até o dia de morrer
Talvez, não tenha perdão
Sofreste em outras mãos o que fiz naquele dia
Te vendi por alguns trocado
Um amigo não tem preço
O que fiz, foi judiaria
Nunca mais vendo cavalos
Never Selling Horses Again
One day I sold my horse
It was on a Sunday, during those rodeo rounds
I was all dressed up, feeling good
Riding with my horse all sleek
They offered me a drink, and we kept chatting
Soon they started throwing cash at my Picasso
He was shiny and strong
Calm as a cat on a fence
No one buys gentleness, said an old rancher
They tossed some cash on the cloth
And right away I hesitated
Then I thought
They'll take care of my horse, I never got too attached
My home is loneliness
I even gave a nod, and sold my old friend
On my way back home, already feeling the drink
I remembered the adventures we had around the land
I even recalled a night we spent on a hillside
Because of a filly
The Picasso went wild
Then he calmed down, and got back to his manners
It's just how creatures are, part of nature
I know how it goes
It happened to me too
But I had already sold him, nothing could change that
Life went on, how many have sold horses?
Some good, some bad, but it's part of the tradition
Then we got another colt, broke him in, and another one's ready
For the precise work
And so the years went by, and I never saw the Picasso again
But I still had memories, of those ranch parties
Under a fig tree
We posed for a picture
I was all smiles
Such happiness
And he all groomed, with his neck held high
Showing off his grace
And time kept passing, I kept breaking colts
But one was worse than the other
I never roped again
I remembered my Picasso
Gentle and good for work
I had him in hand, never hesitated
Since the day he arrived, a young one, well-mannered
He got used to my side, living there in the barn
Life is a fallen fence
When you feel nostalgia, it hurts like hell
The heart secretly, sometimes, marks in the chest
Like a thorn in the groin
It doesn't look good for a gaucho
To miss a horse
How can you cry, and it's a thing for a tough guy
Feelings are a hassle
Hard to deal with
But time comes alone, brings no godmother
One of those winter days
Gathering frost on my coat
I was walking down the corridor, thinking about life
That's when I saw a horse, skinny, lying there
By the fallen fence
I got closer to that hide thrown away
His eyes, lost and sad
I asked myself
What kind of jerk exists in this world
To throw away a horse
To let it die on its own?
I asked death for permission and approached quietly
I don't believe in divinity, but a miracle happened
There by the fence, when he looked at me with sadness
In that moment I knew
That horse was mine
I took him to my ranch, treated him, healed his wounds
Gave him food and stayed by his side
Until he got better
Forgive me, my Picasso friend, now you stay with me
I’ll never sell you again
I don’t care much
If you’re no longer good for work
Here will be your life
Until the day you die
Maybe, there’s no forgiveness
You suffered in other hands for what I did that day
I sold you for some cash
A friend has no price
What I did was cruel
Never selling horses again
Escrita por: Renato Jaguarão