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Antropofagia

Rivaz Folc

Antropofagia

Comerei de tudo que vier
Inteiro, queimado, rasgado em pedaços
Comerei sardinha o jesuíta, sem tempero sem farinha
Comerei textos perfeitos, refeitos e vulgares
Sãos inúteis, sagrados e profanos, contos cultos, suburbanos
Matarei a anorexia, viverei a favor da bulimia
Secos, enxutos e molhados
Todo tipo de lembrança do passado de gregos romanos e troianos
Tarsila e Amaral, Lobo Mario e Andrade

Comerei a memória destes mortos depois vomitarei tudo que eu comi
Comam agora tudo o que foi feito
Comam agora tudo que fizeram
Comam agora tudo que eu fiz

A herança deixada pelos negros a cultura disseminada pelos brancos
A orelha cortada de Van Gogh, as mãos crucificadas de um homem

Comerei em churrasco de domingo os restos dos livros de Alexandria
Comerei o Brasil colônia, império, república e ditadura
Arrotarei a vergonha do meu povo a descarada face da política
O dinheiro lavado em guardanapos que enxugaram a boca
Dos famintos que comeram os restos que sobraram
Comerei as memórias do passado depois vomitarei tudo que eu comi
Comam agora tudo que eu fiz
Comam agora tudo fizeram
Comam agora tudo o que foi feito

Antropofagia

Comeré de todo lo que venga
Entero, quemado, desgarrado en pedazos
Comeré sardinas y jesuitas, sin condimento ni harina
Comeré textos perfectos, reescritos y vulgares
Son inútiles, sagrados y profanos, cuentos cultos, suburbanos
Mataré la anorexia, viviré a favor de la bulimia
Secos, enjuagados y mojados
Todo tipo de recuerdo del pasado de griegos, romanos y troyanos
Tarsila y Amaral, Lobo Mario y Andrade

Comeré la memoria de estos muertos y luego vomitaré todo lo que comí
Coman ahora todo lo que fue hecho
Coman ahora todo lo que hicieron
Coman ahora todo lo que yo hice

La herencia dejada por los negros, la cultura diseminada por los blancos
La oreja cortada de Van Gogh, las manos crucificadas de un hombre

Comeré en el asado del domingo los restos de los libros de Alejandría
Comeré el Brasil colonia, imperio, república y dictadura
Escarbaré la vergüenza de mi pueblo, la descarada cara de la política
El dinero lavado en servilletas que secaron la boca
De los hambrientos que comieron los restos que sobraron
Comeré los recuerdos del pasado y luego vomitaré todo lo que comí
Coman ahora todo lo que hice
Coman ahora todo lo que hicieron
Coman ahora todo lo que fue hecho

Escrita por: Rivaz Folc