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Nunca me ha sucedido

Sandy Müller

Nunca aconteceu comigo

Nunca aconteceu comigo
Eu não nasci numa cidade sem ruas, sem luz elétrica, sem gás pra cozinhar.. Quando tem alguma coisa pra se cozinhar.
Onde eu nasci temos geladeiras cheias e água quente pra tomar banho
Nunca aconteceu comigo de ter que escolher se trabalhar ou estudar.
Não corri o risco de virar um avião pra entregar a branca.
Eu nem nunca a vi a branca. Eu.
Nunca aconteceu comigo de ter que cantar com voz mais alta pra não ouvir os tiroteios.
Até agora só cantei de felicidade não pra cobrir os horrores.
Nenhum dos meus familiares foi morto
e não vivo me perguntando se amanhã ainda vou estar vivo.
Eu não vivo na vergonha de uma situação de que não se sabe como sair.
Se tem uma saída.

Nunca aconteceu comigo.
Mas foi só um acaso.
Um acaso que me salvou do caos.

Nunca aconteceu comigo,
mas aconteceu com um outro.
Ele vive com o braço esticado e só no melhor dos casos a mão dele é aberta pedindo esmola.
Geralmente ela é bem fechada agarrada a um revólver, como se fosse a única esperança, a única possibilidade, a alternativa de uma democraticamente trágica opção: ou você aponta ou é apontado.
Nunca aconteceu comigo, mas agora olho e descubro.
Descubro algo que é difícil de se olhar porque saber é inútil,
não tem jeito de mudar as coisas.
É o que dizem.
Talvez seja verdade. Não se muda o sistema.
Mas algumas vidas resolvem se salvar.
Alguém sai disso.
Alguém resolve que vai inventar um caminho que não existe.
Nunca aconteceu comigo de ter que inventar um caminho.

Nunca aconteceu comigo.
Mas foi só um acaso.
Um acaso que me salvou do caos.
Por isso pensamos , refletimos, apoiamos, admiramos, conhecemos grupos de recuperação social que cada dia evitam que isso aconteça comigo, contigo, com ela, com ele...

Nunca me ha sucedido

Nunca me ha sucedido
No nací en una ciudad sin calles, sin luz eléctrica, sin gas para cocinar... Cuando hay algo para cocinar.
Donde nací tenemos refrigeradores llenos y agua caliente para bañarnos
Nunca me ha sucedido tener que elegir entre trabajar o estudiar.
No corrí el riesgo de convertirme en un avión para entregar la mercancía.
Ni siquiera la he visto, yo.
Nunca me ha sucedido tener que cantar más fuerte para no escuchar los tiroteos.
Hasta ahora solo he cantado de felicidad, no para tapar los horrores.
Ninguno de mis familiares ha sido asesinado
y no vivo preguntándome si mañana seguiré vivo.
No vivo en la vergüenza de una situación de la que no se sabe cómo salir.
Si hay una salida.

Nunca me ha sucedido.
Pero fue solo un golpe de suerte.
Un golpe de suerte que me salvó del caos.

Nunca me ha sucedido,
pero le sucedió a otro.
Él vive con el brazo extendido y solo en el mejor de los casos su mano está abierta pidiendo limosna.
Generalmente está bien cerrada aferrada a un revólver, como si fuera la única esperanza, la única posibilidad, la alternativa de una trágica opción democráticamente: o apuntas o te apuntan.
Nunca me ha sucedido, pero ahora miro y descubro.
Descubro algo que es difícil de mirar porque saber es inútil,
no hay forma de cambiar las cosas.
Es lo que dicen.
Tal vez sea verdad. No se cambia el sistema.
Pero algunas vidas deciden salvarse.
Alguien sale de eso.
Alguien decide que va a inventar un camino que no existe.
Nunca me ha sucedido tener que inventar un camino.

Nunca me ha sucedido.
Pero fue solo un golpe de suerte.
Un golpe de suerte que me salvó del caos.
Por eso pensamos, reflexionamos, apoyamos, admiramos, conocemos grupos de recuperación social que cada día evitan que esto suceda conmigo, contigo, con ella, con él...

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