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Lamento Incontestável

Vilmem

Lamento Incontestável

Me apareceu em visão de sonho
Caboclo beicuço, de chapéu
Enunciou um intendo bisonho
Para que finalmente pudesse ir pro céu

Emendou história em pesadelo
Me fez ver, ouvir o que aconteceu
Arrepiei espinha, tudo os cabelo
Era um lamento, incontestável

Meus pedaços em Taquaruçu
Os separe dos animais
A voz dos degolados no Iguaçu
Fala de meus ancestrais

O que contou foi profano
Criança comendo abelha antes do mel
De um riso complacente e vaqueano
Povo cego na mão de coronel

A pátria armada queimou a igreja
E derrubaram inté o nosso santo
Tanto tiro bomba nos alveja
Nem Deus conseguiu ouvir o pranto

Compraram enxerto importado
E costuraram em linha trem
Pra remendar esse machucado
Sem perguntar a nada nem ninguém

Enterrados na doença e fome
Tratados na base de massacre
Nossa cova não tem nome
Defunto, vale Acre

Pro final teve açougueiro
Também me sapecaram no sapé
Uns viraram até nobre herdeiro
Mas os nosso, é pois, José

O que você ouviu é história
Conte para que não se repita
Nem sempre a glória
É de quem a vomita

Pro além ele partiu
Mas no espelho o reconheci
Quiça em minha veia seu sangue corre
Essa luta não chegou ao fim

Lamento Incontestável

En una visión de sueño me apareció
Un campesino de nariz aguileña, con sombrero
Expresó un extraño propósito
Para finalmente poder ir al cielo

Tejió una historia en pesadilla
Me hizo ver, escuchar lo que sucedió
Se me erizó la piel, se me erizaron los cabellos
Era un lamento, incontestable

Mis pedazos en Taquaruçu
Separados de los animales
La voz de los degollados en el Iguaçu
Habla de mis ancestros

Lo que contó fue profano
Niño comiendo abejas antes de la miel
Con una risa complaciente y vaquera
Pueblo ciego en manos del coronel

La patria armada quemó la iglesia
Y derribaron hasta a nuestro santo
Tantos tiros y bombas nos alcanzan
Ni Dios logró escuchar el llanto

Compraron injertos importados
Y los cosieron en línea de tren
Para remendar esta herida
Sin preguntar a nadie

Enterrados en enfermedad y hambre
Tratados a base de masacre
Nuestra tumba no tiene nombre
El difunto, vale Acre

Al final hubo carnicero
También me chamuscaron en el sapé
Algunos se convirtieron en nobles herederos
Pero los nuestros, son, José

Lo que escuchaste es historia
Cuéntala para que no se repita
No siempre la gloria
Es de quien la vomita

Él partió hacia el más allá
Pero en el espejo lo reconocí
Quizás por mis venas corre su sangre
Esta lucha no ha llegado a su fin

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