Memória

Ada Koffi

Eu sou o vento
Que veio correndo de longe
Brincando com as folhas pelo quintal

Fui a criança
Que um dia sentou naquele banquinho
Bem quietinha
Só pra ouvir preta velha falar

Eu posso sentir
O cheiro do café passado na hora certa
O pano branco no ombro
E a reza sussurrada

É pipoca estalada
No fogo da café
E eu aprendi
O que é amar devagar

Cada passo meu
Guarda um pedaço daquelas histórias
Histórias contadas com os olhos
Com as mãos
E com o tempo

E cada verso
Que sai da minha boca
Tem gosto de chão batido
E lembrança
Do abraço que cura o coração

Me disseram
“Você é o sonho que a gente sonhou, menina
Menina com voz
Com canto
E tambor”

E eu cresci
Mas nunca deixei de ser
Aquela menina
Que via no lenço e no rosário
Um universo inteiro

Que dançava
Com os pés descalços no terreiro
Ouvindo o riso manso
De quem já viveu há mil vidas

Sou a chama
Acesa com cuidado

Eu sou a memória
Que canta
E se espalha

Minha arte é a reza
Que virou canção

E agora
Cheia do hoje
E cheia de amanhã

Sou as mãos
Que me enviaram

Eu sou as vozes
Que me embalaram
E as preces
Que me fizeram flor

Eu?
Eu ouço as vozes
De um coração griô


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