
Naquele Bar
Fabio Brazza
Naquela mesa ele sentava sempre
Uma cicatriz na cara e uma corrente
Tinha uma cruz no pingente
Arma na cinta e umas fitas pendentes
Sempre contando histórias de como ele era valente
Era tanta joia, era tanto brilho
Era o mais ágil pra puxar o gatilho
Herói do seu filho mais que o Clark Kent
Era o mais chapa-quente
Era o primeiro na linha de frente
Naquela mesa, ele geria uma empresa
E tinha muitos clientes
Era influente no seu neighborhood
Fazia festas beneficentes
Era tipo Robin Hood
Distribuía presentes para as famílias carentes
Naquela mesa, naquela noite
Algo de ruim se pressente
Tava jurado, pois tinha atirado em um polícia de alta patente
Era um tenente ou era talvez um parente desse tenente?
Só sei que no dia seguinte foram mais de dez corpos
A maioria inocente
Naquele bar, naquela esquina
Com uma faixa amarela na frente, uma chacina
Mano, não sobrou ninguém, mataram até um adolescente
Era o filho do chefe que esperava o pai
Naquela mesa de sempre
Mas nesse dia não encontraram seu pai
Só uma cadeira ausente
Naquela mesa tá faltando ele
(Ele, ele, ele)
Tá faltando ele
Naquela mesa tá faltando ele
(Ele, ele, ele)
Tá doendo em mim
No noticiário saiu o ocorrido
Mas o relato foi diferente
Disseram que era uma troca de tiro
Entre duas facções concorrentes
Que os policiais não estavam envolvidos
Aquela mesma história de sempre
Que o chefe bandido estava foragido
Ou tinha morrido como um indigente
Na comunidade velaram seu filho
E choraram por dias a morte dos entes
Disseram que ele pegou o dinheiro
E foi pro estrangeiro ou talvez pra um país do oriente
Ninguém sabia do seu paradeiro
Dez anos depois, coincidentemente
O tal do tenente que matou seu filho
Sumiu misteriosamente
Essa história que eu estou contando
Ouvi de um senhor que conheci recente
Que carregava a foto do filho num belo colar de ouro reluzente
Não vou me esquecer da cicatriz estampada na face
Daquele homem na minha frente
Naquela mesa, naquele bar
Onde ele contou essa história pra gente
Naquela mesa tá faltando ele
(Ele, ele, ele)
Tá faltando ele
Naquela mesa tá faltando ele
(Ele, ele, ele)
Tá doendo em mim
Olhei no fundo dos olhos desse homem e falei
Naquela chacina o meu pai estava presente
Quando a polícia veio pra te matar
Acabou matando um trabalhador decente
Por causa disso a minha mãe enlouqueceu
E pouco tempo ela morreu porque ficou muito doente
Eu tive que cuidar sozinho do meu irmão
Que, revoltado com o mundo, virou mais um dependente
Passei a vida toda querendo me vingar
E, se você quer saber, fui eu quem matou o tenente
Eu sei quem você é, eu vim pra te buscar
Agora vai ser olho por olho e dente por dente
Puxei a minha arma, mas na hora de atirar
De repente, um barulho estridente
Pra minha surpresa, embaixo daquela mesa ele descarregou o pente
Deixa, deixa, deixa a tristeza sentar
Mas não deixa ela se acomodar
Lembra, lembra daquela mesa, daquele bar
Onde a tristeza fez amizade com a saudade só para me matar
Onde a tristeza fez amizade com a saudade só para me matar



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