
Imortal Gênio
Léo Martins
Se forem contar essa história
Comecem pelo que ninguém quis ver
Com a faca no pescoço, obrigado a me render
Cada passo vigiado, sem espaço pra escolher
Câmeras gravando a dor que ninguém quis enxergar
Tanta gente atrás da lente, ninguém pra me escutar
Sobrevivi ao absurdo e aos tapas da sociedade
Me deram um plano falido com o nome de salvação
Objetivos tão bonitos, tão pouca integridade
Uma tribo urbana sem cacique quer salvar a nação
Meu nome num papel, minha versão interrompida
Tanta gente decidindo o que fazer da minha vida
Ninguém me perguntava o que eu ainda pretendia
Falavam do meu fim enquanto eu planejava o dia
Se a história terminar na imagem que ficou
Quem vai contar a parte que a câmera cortou?
Fui lançado na sorte
O conteúdo central era morte
Roupas de cama pra sair na última festa
Onde os balões foram de oxigênio
Entre ruídos e som
A marcha fúnebre era a canção que dava o norte
Exatamente o que eu mais não quis
Era ser um imortal gênio
A máquina acompanha os batimentos disparados
Meus nervos à flor da pele, meus sentidos aguçados
Entre o medo e a coragem, vejo a linha se estreitar
Seguro firme o lençol como quem tem onde voltar
Corporativismo intelectual, retaguarda de lama
O herói entra em campo com um ponto a menos
Cada um protege os seus, ninguém responde pela trama
Minha vida posta em jogo entre discursos tão serenos
Decorei as rachaduras e as manchas do teto
O mundo lá fora correndo, e eu ali, quieto
Meu futuro era uma porta que eu queria atravessar
Com meus próprios pés no chão, sem ninguém me carregar
Se a história terminar na imagem que ficou
Quem vai contar a parte que a câmera cortou?
Fui lançado na sorte
O conteúdo central era morte
Roupas de cama pra sair na última festa
Onde os balões foram de oxigênio
Entre ruídos e som
A marcha fúnebre era a canção que dava o norte
Exatamente o que eu mais não quis
Era ser um imortal gênio
Colheitas sem frutos
Passado sem futuro
Escolha incerta, vida em avaria
Tão pouco espaço pra alegria
Um motor na rua, alguém chamando no portão
A vida acontecendo além daquela solidão
Eu quis de volta o barulho que antes me incomodava
Uma manhã qualquer, com a janela escancarada
Guardem os discursos
Eu ainda tô respirando
Fui lançado na sorte
O conteúdo central era morte
Roupas de cama pra sair na última festa
Onde os balões foram de oxigênio
Entre ruídos e som
A marcha fúnebre era a canção que dava o norte
Exatamente o que eu mais não quis
Era ser um imortal gênio
Se trouxerem flores, quero sentir o cheiro
Se disserem que me amam, que eu escute primeiro
Abro a janela e deixo o ar entrar
A última festa ainda vai ter que esperar




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