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Poema de Saudade

Manuella Portela

Saudade é beijo de chuva, nos lábios verdes do pasto
É trança de laço velho, que às vezes anda de arrasto
Corruíra sem ter rancho, estribo sem ter o pé
Saudade é flor na corrente, fugindo do aguapé

Saudade é lã esquilada que se separa da ovelha
É mel novo adocicado, que se extraviou das abelhas
Noite fumaça sem Lua, pressentindo um temporal
Saudade é baba que escorre junto ao mascar de um bocal

Saudade é grilo cantante, em madrugada ventosa
É cabelo sem adornos, sentindo falta da rosa
É cusco que não regressa depois varar a sanga
Saudade é vida esvairada depois que uma faca sangra

Saudade é ser o que era, é ruga em faces de velho
É cruz de pedra sem nome, que mora num cemitério
É homem de cerda moura que muita história conhece
Saudade é morte nos olhos do sal que motiva a prece

Saudade é uma pataquada, história de tarde inteira
É potro que não se amansa sujeito ao dom da soiteira
É vaca que berra triste ao se apartar de um terneiro
Saudade é cheiro de terra num chuviscar veraneiro

Saudade é dor de um barreiro, ao despencar o seu mundo
É touro da guampa suja, num caponete do fundo
É prenda que vive a espera, é peão que vive campeando
Saudade é amor em distância que se apequena cantando


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