Nunca foi Amor
Sandra Braids
Do ventre veio a força
Da dor nasceu o som
Calaram nossas vozes
Mas o grito segue em tom
A gente sangra todo dia
E não é por ovulação
Subjugadas pela pele
Silenciadas na paixão
Hoje o grito é sem medo
Tudo isso vai mudar
Essa jornada é longa
Tô pronta pra encarar
Ser mulher, filha, amante
É lutar, é resistir
Respirar a esperança
Do que ainda há de vir
Se liga, porque eu vou
Falar só mais uma vez
Se quiser caminhar junto
Que seja com sensatez
Agora senta e escuta
Vê se aprende a lição
Depois reflita com os manos
E façam a desconstrução
Reconhece aí, mané
Teu jogo de opressão
Não mina minha autoestima
Com tua depreciação
Nosso corpo, objeto
Disponível pra servir
Mutilada, esfacelada
Quem sou eu dentro de mim
As vozes da minha infância
Teimam em me perseguir
Menina, toma juízo
Fecha as pernas, hora de ir
Olha a boca, não responda
Se comporta, vá deitar
Cadê seu filho, seu noivo
Primeiro tem que casar
As vozes da minha infância
Teimam em me perseguir
Pra quê essa gargalhada
Vermelho é cor ruim
Essa roupa tá curta
O que o povo vai pensar
Menina tem que ser
Recatada e do lar
É porque tu é mulher
Um dia ele vai mudar
Alguma coisa tu fez
Segura o choro, vai passar
Cada frase é um gatilho
Que dispara na cabeça
Barulho ensurdecedor
Não há ninguém que esqueça
Cada atitude é um alerta
Pra onde eu vou seguir
Nesse beco, encurralada
Pra onde devo fugir
O perigo mora ao lado
Não dá tempo de escapar
Essa faca afiada
Achou meu peito pra crivar
Essa história de tragédia
Parece não terminar
Ferimento que não fecha
Segue a sangrar
Por enquanto a regra é tua
Mas eu luto pra quebrar
O pesadelo é meu
E tu vai ter que acordar
Nos jornais, a todo instante
O rosto de um novo algoz
Justiça lenta e eu pergunto
Quando a lei será por nós
Namorada ou amante
Seja lá quem ela for
Não é tua propriedade
Matar nunca
Foi amor
Nunca foi amor
As vozes da minha infância
Teimam em me perseguir
Menina, toma juízo
Fecha as pernas, hora de ir
Olha a boca, não responda
Se comporta, vá deitar
Cadê seu filho, seu noivo
Primeiro tem que casar
As vozes da minha infância
Teimam em me perseguir
Pra quê essa gargalhada
Vermelho é cor ruim
Essa roupa tá curta
O que o povo vai pensar
Menina tem que ser
Recatada e do lar
A roleta genocida
Parece não incomodar
Enquanto um corpo esfria
Tem outro a agonizar
Essa triste estatística
São vidas que se vão
Nosso grito tem motivo
É dor e revolução
O que eu quero é ser livre
Pássaro solto a voar
Fazer minha própria história
Deixar herança memória
Eu sei, parece ser muito
Tanto a desconstruir
Essa lógica é um muro
Que está prestes a ruir
Por um mundo em que você
Não precise me odiar
Viver o amor de fato
Sem corpos pra encarcerar
Um chamamento, um clamor
Firma o passo a caminhar
Eu, você, nós, lado a lado
Rumo a decolonizar
Maria da penha vive
E vamos continuar
Repita comigo agora
Nem pense em nos matar
Nem pense em nos ma-tar
As vozes da minha infância
Teimam em me perseguir
Menina, toma juízo
Fecha as pernas, hora de ir
Olha a boca, não responda
Se comporta, vá deitar
Cadê seu filho, seu noivo
Primeiro tem que casar
As vozes da minha infância
Teimam em me perseguir
Pra quê essa gargalhada
Vermelho é cor ruim
Essa roupa tá curta
O que o povo vai pensar
Menina tem que ser
Recatada e do lar!
Sai pra lá
Pra lá
Sai pra lá
Pra lá
Sai
Pra
Lá



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