Eu Disse Não Ao Diabo
Skull Dark Country
Ela veio tarde, vestido preto, vel carmim
Cheiro doce, quase sangue, rindo baixo só para mim
Unha longa na lapela
Olho claro, fundo, frio
Me chamou de meu poeta
Como chamo lobo pro navio
Pôs na mesa um baralho
Cada cartão vai brilhar
Disse: Escolhe teu milagre que eu te ensino a mandar
Um contrato na fumaça, tinta escura, sem perdão
E um anel pesado, velho, que cabia na minha mão
Senti o gelo na espinha quando ela disse meu nome
Era doce, era veneno, era espinho em flor de fome
Mas eu disse não ao diabo
Mesmo nela disfarçado de mulher
Disse não pro ouro fácil
Pra glória que devora quem quiser
Eu encarei aquele sorriso torto
Beijando a beira do meu chão
Olhei no olho do inferno aberto
E respondi bem baixo: Não
Ela falou de estrada cheia, de plateia feito mar
De joelho se curvando se eu mandasse só olhar
Prometeu trono e trincheira onde eu nunca ia cair
Prometeu que até meu medo ia aprender a me seguir
Com a voz tão sussurrada se encostou no meu ouvido
Todo mundo tem seu preço, só me conta o teu perigo
Mostrou vultos na parede, eu venci em todo lugar
Mas meus olhos eram loucos, eu não vi o meu lar
Nesse filme em preto e cinza, eu reinava sem perdão
Mas meu peito era uma igreja sem ninguém no banco do chão
E eu disse não ao diabo, mesmo com perfume de mulher
Disse não para sede antiga de provar que eu sou quem quiser
Eu preferi meu canto torto, minha cama sem colchão
Preferi ficar na beira do que cair naquele não
Ela riu rasgando o teto
Você é fraco ou é louco?
Eu sorri com lábios secos
Sou só homem, não sou pouco
Ela me mostrou meus fracassos
Um por um na palma da mão
Disse: Eu curo cada corte, te transformo em furacão
Mas cura comprada é corrente, furacão também se vai
Eu nasci para ser só carne, não estátua no pedestal
Então eu disse não ao diabo
Quando se sentou no meu sofá
Com a boca cor de vinho
E promessa em cada olhar
Disse não ao brilho falso
Que se apaga em escuridão
Disse não para ser eterno
E esqueci o próprio vão
Ela ficou só um instante
Parecendo ter piedade
Você escolhe ser pequeno
Nesta vida de verdade
Eu respondi sem orgulho, sem bandeira, sem sermão
Prefiro a queda que é minha do que tua mão na minha mão
Lá fora o galo cantava, ou talvez fosse ilusão
Mas senti qualquer coisa se mexendo em meu pulmão
Respirei como se o mundo fosse simples, fosse chão
Ela disse: Pensa de novo
Eu pensei e disse não
Eu disse não ao diabo
Mesmo bela, mesmo luz
Disse não ao atalho curto
Que no fim só me seduz
Abracei minha miséria, minha carne, minha cruz
Se é para andar com alma inteira
Que seja a pé, sem tua luz
Agora às vezes eu lembro quando



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