Clave de Vento
Adriana Sperandir
Sair do poço é sangrar os dedos
Dos pés, da alma, dos veios e veias
Deixar-se preso, mergulhar no espelho
Nadar na insônia das secas e cheias
Abrir o novo é rasgar as águas
Sem barco ou leme
Sem ter porto ou cais
É voar sozinho em clave de vento
Gritar nos olhos cada nunca mais
Ver-se por dentro é morder a entranha
Do que é estranho, do que não se explica
Cravar as garras no próprio destino
No desatino de quem parte ou fica
Viver a vida é dançar no abismo
Sem ter cordames na raiz do medo
É ter a alma solta
E nas algemas morrer bem tarde
Mesmo sendo cedo
Abrir o tempo é rever lembranças
Do que em pequeno era dor e espanto
Viver a pleno cada desespero
Mesmo sem colo para o acalanto
Saber da vida é pensar vivendo
O que sabemos pouco nos demora
Contar segundos é sempre um a menos
Por mais que o tempo estale nas esporas
Abrir os olhos é rever retratos
Gastar as unhas contra a ventania
Até o quando de abraçar a hora
Que engole a sombra
E adormece o dia



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