Linha São Miguel
Aládio Dullius
Nasci na Linha São Miguel, no chão batido do interior
Onde o pão é repartido e o pouco tem mais valor
De Sol a Sol na roça, a enxada é oração
Suando a terra vermelha pra botar o pão no galpão
Casa de porta aberta, família grande, que Deus quis
Muitos irmãos e irmãs, num rancho pobre mas feliz
Um par de bota pra dois, remendo em cima de remendo
E a mãe fazendo milagre com o pouco que ia tendo
Mas quando o Sol castiga, queimando o lombo do vivente
O Rio Uruguai me chama, na sua água corrente
Ali eu lavo a alma, lavo o corpo cansado
E vejo a mãe na pedra, com as mãos no ensaboado
Lavando roupa e sina, no rio do nosso chão
Rio Uruguai que leva, mas guarda no coração
Meu pai não teve estudo, mas me ensinou a lição
Que homem se mede é pela palavra e pelo facão
A roça não perdoa quem não tem fé na lida
Mas quem respeita a terra, a terra devolve em vida
Hoje ainda sou da roça, da mesma Linha São Miguel
Com as mãos calejadas e o olhar no mesmo céu
Não troco a minha pobreza por riqueza da cidade
Porque aqui sou herdeiro de trabalho e liberdade
E quando o dia finda, lá no poente avermelhado
Desço pro Rio Uruguai, pro meu banho sagrado
A água fria me benze, me deixa purificado
Pra no outro dia cedo, voltar pro eito dobrado
Sou de Linha São Miguel, filho do Uruguai barrento
Criado com muito pouco, mas com muito sentimento



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