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A Salamandra de Rouen

Astrikos Katoikos

Rouen trazia um maio incendiado
Sinos badalados pela cerração
Joana, presa à madeira inocente
Via o horizonte mudar de condição

Os doutores guardavam pergaminhos
As testemunhas, sua versão
Ela buscava no alto das torres
Algo sem língua ou jurisdição

O fogo subiu devagar
Desfigurando praça e campanário
Os rostos dos juízes ondulavam
Feito afresco num relicário

A madeira perdeu sua dureza
Rouen perdeu seu calendário
Joana viu a própria condenação
Abrir um fenômeno involuntário

A pele adquiriu outra memória
Os ossos recusaram dimensão
Onde esperavam carne derretida
Nasceu uma antiga mutação

A salamandra no centro da fogueira
Negra pupila na combustão
Joana correu pelas labaredas
Sem pertencer à execução

Salamandra de rouen
Animal de outra matéria
Leva a França nas pupilas
Leva o incêndio na artéria

Santa salamandra de rouen
Contra a sentença e a miséria
O tribunal queria cinzas
Mas recebeu outra quimera

As bandeiras de orleans surgiram
Flutuando no ar convulsionado
Carlos vii perdeu a face
Virou pigmento derramado

São Miguel apareceu sem armadura
Quase translúcido, multiplicado
Joana passou por sua figura
Rumo a um portal vermelho ilimitado

Nenhuma França permanecia
Igual àquela dos estandartes
Catedrais mudavam de substância
Anjos abandonavam suas partes

A salamandra escalou uma torre
Onde profetizaram luas de Marte
No alto encontrou seu velho cavalo
Feito de névoa, ectoplasma e ágate

Não perguntou se aquilo era céu
Tampouco quis interpretação
Já conhecera homens demais
Entregando santidade por salvação

Preferiu seguir pelas brasas
Sem confessor, rei ou absolvição
O fogo falava outro idioma
Incompreensível para a inquisição

Salamandra de rouen
Animal de outra matéria
Leva a França nas pupilas
Leva o incêndio na artéria

Santa salamandra de rouen
Contra a sentença e a miséria
O tribunal queria cinzas
Mas recebeu outra quimera

A praça tornou-se transparente
As casas perderam gravidade
Um bosque nasceu nos telhados
Com a lentidão da eternidade

Joana passou pelas folhagens
Sem procurar luminosidade
Depois de reis, padres e guerras
Queria apenas sua realidade

A salamandra chegou ao sêna
A água ardia numa cor incomum
Os peixes pareciam alfabetos
De um manuscrito sem leitor algum

Rouen diminuía atrás dela
Os sinos já não diziam nenhum
Veredito capaz de alcançá-la
Joana seguia para lugar algum

Quando os carrascos buscaram restos
Acharam cinza, madeira e metal
Nenhum deles viu sob as pedras
A pequena criatura sobrenatural

Ela esperou cessarem os passos
Abriu os olhos no escuro final
E desapareceu pelas vielas
Com seu fulgor elemental

Salamandra de rouen
Animal de outra matéria
Leva a França nas pupilas
Leva o incêndio na artéria

Santa salamandra de rouen
Todo vivo dali guarda na memória
Joana saiu pela fogueira
E abandonou a velha história


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