Suscríbete
visualizaciones de letras 1

Amigo Boiadeiro

Astrikos Katoikos

Nas Gerais, o crepúsculo às vezes tinha cor de alfazema
E os cascos batiam longe na amplidão da fazenda
Ele nasceu entre grotas, assobios e poeira
Com o sertão pisoteando sua infância inteira

O pai tangia boiadas sob o agosto rachadiço
A mãe benzendo quebranto com arruda e sumiço
E o menino, ainda cedo, aprendeu no descampado
Que há remansos mais antigos que qualquer povoado

Dormia perto dos couros e das bruacas de viagem
Vendo estrelas semelharem brasas altas da estiagem
Muitas noites escutava, vindo escuro da chapada
Uma cantiga sem dono vagando pela madrugada

Ele agora corta a fumaça nas estradas do além
Com seu laço de estrelas e uma força que convém
Seu berrante abre caminhos nas lamaceiras da amplidão
Feito uma lufada cruzando da alma ao coração

Conhecia cada vereda, cada planície, cada espinho
Cada córrego barrento escondido no caminho
E conversava com árvores na lonjura das cancelas
Como quem ouve presenças respirando dentro delas

Certa feita, um estouro rompeu bois na ventania
Levantando um poeirão de morte sobre a campina vazia
Ele avançou sozinho no tropel desesperado
Feito um soldado de bravura contra o horror desembestado

Mas um touro negro e velho, de cicatriz sobre o focinho
Rebentou cerca e vaqueiros no desmando do caminho
E ao cair da ribanceira entre pedras e macega
O boiadeiro sentiu a tarde arribar em entrega

Ele agora corta a fumaça nas estradas do além
Com seu laço de estrelas e uma força que convém
Seu berrante abre caminhos nas lamaceiras da amplidão
Feito uma lufada cruzando da alma ao coração

Morreu sem reza comprida, sem doutor, sem campanário
Só o mugido dos bois lamentando seu rosário
E a chuva, muito distante, nem chegou naquela hora
Como se o mundo esquecesse quem partia sertão afora

E baixa nas giras entre guizos e candeeiros
Com chapéu gasto de chuva e passos de boiadeiro
Ampara almas perdidas nas veredas da aflição
Como quem tange os viventes pela noite do sertão

Quando firma seu berrante todo o terreiro estremece
Pois há qualquer coisa antiga que nos médiuns aparece
Uma espécie de lembrança da terra molhada e fria
Das Gerais intermináveis dormindo na Lua bravía

Ele agora corta a fumaça nas estradas do além
Com seu laço de estrelas e uma força que convém
Seu berrante abre caminhos nas lamacêiras da amplidão
Feito uma lufada cruzando da alma ao coração

E quem cruza sua fumaça sob os pirilampos das cancelas
Ouve cascos invisíveis galopando sobre mazelas
Porque existem no boiadeiro a morte e a alvorada
Todo o sertão caipira respirando na estrada

Ê boi

Ele agora corta a fumaça nas estradas do além
Com seu laço de estrelas e uma força que convém
Seu berrante abre caminhos nas lamacêiras da amplidão
Feito uma lufada cruzando da alma ao coração

Escrita por: Astrikos Katoikos, Marcelo Ribeiro Dantas. ¿Los datos están equivocados? Avísanos.

Comentarios

Envía preguntas, explicaciones y curiosidades sobre la letra

0 / 500

Forma parte  de esta comunidad 

Haz preguntas sobre idiomas, interactúa con más fans de Astrikos Katoikos y explora más allá de las letras.

Conoce a Letras Academy

¿Enviar a la central de preguntas?

Tus preguntas podrán ser contestadas por profesores y alumnos de la plataforma.

Comprende mejor con esta clase:

0 / 500

Opciones de selección