Quem Segura Este Pais
Cezar Bezerra
Levantei antes do galo
Quando a barra clareou
O café ainda fumegava
Mas o pão já encurtou
Minha enxada conhece
Cada palmo deste chão
Só não conhece o caminho
Que leva à repartição
Meu vizinho vende a safra
Outro vende o caminhão
Tem quem venda até o sonho
Pra pagar prestação
Cada gota do meu rosto
Vai molhando o cafezal
Mas parece que o trabalho
Vale sempre um pouco a menos no final
Quem segura este país
Não aparece na televisão
Tem calo na mão
Tem barro no pé
Tem fé no coração
Carrega o mundo nas costas
Sem medalha e sem altar
Enquanto poucos contam milhões
O povo aprende a contar
Lá na cidade distante
Entre vidro e elevador
Tem papel que vira ouro
Sem sentir nenhum suor
Dizem que é tudo direito
Que a lei mandou fazer
Mas meu peito se pergunta
Será que justiça é só obedecer?
Vejo escola sem telhado
Vejo posto sem doutor
Vejo estrada se acabando
Sob a roda do trator
Falta verba, falta remédio
Falta ponte, falta pão
Mas dinheiro nunca falta
Quando escolhe certa direção
Quem segura este país
Não aparece na televisão
Tem calo na mão
Tem barro no pé
Tem fé no coração
Carrega o mundo nas costas
Sem medalha e sem altar
Enquanto poucos contam milhões
O povo aprende a contar
Meu avô dizia sempre
O destino é igual pra todos
Hoje olho a balança
E vejo pesos tão tortos
Não invejo a riqueza
Nem o banco, nem o poder
Só queria que o esforço
Valesse o mesmo pra viver
Se a lei protege o excesso
Quem protege o cidadão?
Quem responde pelo grito
Que se cala no sertão?
Cada imposto que eu entrego
Sai ligeiro da minha mão
Mas demora uma eternidade
Pra voltar em solução
Ainda planto minha roça
Ainda canto ao entardecer
Quem perde a esperança
Já começa a morrer
Não desejo a desgraça
De quem vive diferente
Só desejo um Brasil
Que trate igual a sua gente
Que o menino da escola
Possa um dia acreditar
Que trabalho e honestidade
Ainda servem pra chegar
Que a Justiça seja ponte
Nunca muro ou proteção
Pra quem já nasceu no alto
Sem ouvir a multidão
Quem segura este país
É o povo que insiste em plantar
Mesmo quando a colheita
Demora a brotar
Quem levanta esta nação
É quem nunca desistiu
Porque a riqueza de um povo
Não cabe no cofre do Brasil
Quando eu voltar pra casa
Com a viola no embornal
Vou pedir somente a Deus
Que não ache isso normal
Pois um país se mede menos
Pelo ouro que juntou
E muito mais pelo respeito
Que ao seu povo ele deixou



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