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Versos de Inverno

Éder Goulart

Cuidando a água do mate, me acomodo junto ao fogo,
E logo a noite desaba, lá fora só chuva e vento,
Passo o braço na guitarra, como quem busca uma china,
E tapo de rima as brasas, tentando enganar o tempo.

E me atento numa milonga, que a noite se alonga,
Mateando uma saudade, se esvaiu a tarde,
E a chuva não deu trégua, e eu légua e légua de canto,
Tchê, milonga caborteira, sem eira e nem beira,
Que se achega aos pelegos, trazendo o aconchego,
Que me falta ao rancho, quase virado em tapera.

Milonga, parceira das longas noites, com mates de espera,
Das lidas de campos, das manhãs de geada,
Em que veste de branco, a princesa da serra,
Milonga, que venham versos de inverno ressoando longos,
Na canção mais fria, que o coração do serrano é mais quente,
Para enfrentar a invernia.

Se estampam traços de história, nesta rude paisagem,
De tropas buscando o norte,de morte à ponta de adaga,
Talvez um dia me tragam, os desvarios da sorte,
Uma morena da Lagens, pra dividir madrugadas.

E me aparto numa milonga, e a noite se alonga,
Mateando uma saudade, se esvaiu a tarde,
E a chuva não deu trégua, e eu légua e légua de canto,
Tchê milonga caborteira, sem eira nem beira,
Que se achega aos pelegos, trazendo o aconchego,
Que me falta ao rancho, quase virado em tapera.

Milonga, que vem com cheiro de mato, mates de varanda,
De terra molhada no tranco das tropas que cruzavam estrada,
Pela princesa da serra.


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