
JOÃO SEM CORDA
Luiz Marenco
Se foi para o campo santo numa tardezita gris
Pra quem soube ser feliz tendo um pouquinho de tudo
Sempre matearam juntos, João sem corda e Vivaldina
Pra ela a estrada termina, pra ele, foi fim de mundo
Foram coplas e mais coplas, lá debaixo da ramada
Olhando seus olhos negros, pra ela, ele dedicava
Cada acorde que arpejava, dizia: Pra ti minha linda!
João sem corda e Vivaldina, ranchito beira de estrada
Vendeu um lote de borrego, depois a junta de boi
Depois e bem mais depois, se desfez de quase tudo
O rádio que correu o mundo, se inteirando das notícias
Um dia entrou pra lista e só restou o criado mudo
Pra pagar o bolicheiro, a farmácia o arrendamento
Se desfez cento por cento, quase tudo, tanta coisa
Mas o vestido de noiva e sua pilcha, melhor gala
Num cabide, ali na sala, lembram Vivaldina moça
Restou o catre na sala, uma lamparina, uma banca
Uma escova pra fazer a trança, na sua linda Vivaldina
Prenda linda, aguerrida, primeiro e único amor
Que o senhor lhe presenteou, até o dia da partida
Golpeia com a mão direita, faz umas notas com a canhota
Na sua cabeça ainda toca suas coplas pra Vivaldina
Adonde a estrada termina, tá o rancho com a ramada
E num gesto sem guitarra, toca o João pra Vivaldina
Quem cruza boca da noite, olhando ao norte do estribo
Escuta um dum dum e um silvido, que João sem corda enaltece
Murmura qual uma prece, imita tocar a guitarra
Mais uma copla pra amada, que Vivaldina merece



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