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O que não está por vir

Tião Folk

No fundo da xícara, o café em pó seco
Como rios que morriam e secavam ao norte
Um tolo me disse que o oeste era cinza
E que o sul já não tinha o brilho de antes

As janelas batiam em código Morse
O rádio gritava sem querer ouvir
Um homem sem tempo vendia relógios
Que só marcavam o que não está por vir

E eu sigo, sem mapa, sem vela, sem porto
Por entre vozes que não sabem meu nome
O mundo gira, mas não me conhece
E o tempo me veste com os medos de ontem

E eu desço escadas que não têm degraus
Com olhos fechados e luzes acesas
O passado me chama por nomes errados
E o futuro é uma porta que logo se fecha

Não era saudade, era um eco sem dono
Batendo na mente, numa noite sem sono
As cortinas dançavam com o cheiro da chuva
Pensei em gritar, mas já estava rouco

Lembrei de um trem que andava em círculos
Com passageiros feitos de papel molhado
Falavam de amores que nunca existiram
De guerras perdidas e sonhos cansados

O chão se abriu como um livro sem capa
E eu caí numa página escrita em silêncio
Lá, encontrei um espelho que não refletia
Apenas mostrava de novo o começo

E eu subo escadas que não têm degraus
Com olhos abertos e luzes fechadas
O futuro me chama por nomes errados
E o passado é uma porta que aos poucos se fecha

E eu desço escadas que não têm degraus
Com olhos fechados e luzes acesas
O passado me chama por nomes errados
E o futuro é uma porta que aos poucos se fecha
No fundo da xícara, o café em pó seco
Como rios que morriam e secavam ao norte
Um tolo me disse que o oeste era cinza
E que o sul já não tinha o brilho de antes

A sala inteira cheira a café velho
A chuva risca o vidro como quem cobra contas
Sento onde sempre sentei
No mesmo ponto onde larguei
Aquilo que jurei um dia enfrentar

No rádio, vozes falam do futuro
Como se fosse um lugar acessível
Eu, que deixei passar o único trem
Porque tive medo de chegar errado
Agora escuto o tempo me perguntar
Por que continuo esperando

Não é nostalgia, é cobrança
Um passado que sabe meu nome inteiro
E repete só a parte que eu tentei esconder
As paredes me lembram
Da porta que eu não atravessei
E da frase que nunca tive coragem de dizer

Desço escadas que não existem
Porque nunca construí as minhas
Fecho os olhos porque é mais fácil
Do que admitir que a escuridão sou eu
E quando abro, o futuro ainda está lá
Mas não me reconhece

A chuva engrossa
O silêncio pesa
E percebo, tarde demais
Que o que não está por vir
É exatamente o que nunca tive coragem de começar


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