Marla
Banda Nami
Segunda-feira no porão
Café queimado, luz de necrotério
Cada santo com sua prestação
Cada trauma com vocabulário sério
Eu não buscava absolvição
Nem mapa astral, nem manual
Só teu vulto na contramão
Rindo do apocalipse emocional
Segunda-feira, grupo espiritual
Gente em frangalho vendendo ascensão
Um místico coach, sorriso cordial
Vendia nirvana por assinatura anual
Teu olho riscou a fumaça cinza
Como lâmina em vitral pagão
Meu Deus cuspiu na cornija
E pediu baixa da instituição
Terça-feira, grupo do desejo
Nome postiço, culpa no espelho
Todo afeto em modo despejo
Toda carícia com juros no vermelho
Sexo barato, amor rarefeito
Pele em liquidação no breu
Cada beijo fingindo conceito
Cada corpo terceirizando o seu
Quarta-feira, sala sem liturgia
Você riu da minha pose de aço
Disse: Tyler, tua anarquia
Usa terno, trauma e disfarce de palhaço
Eu disse: Marla, o mundo perdeu o tesão
Você: Perdeu nada, vendeu parcelado
E a gente brindou com danação
Num copo plástico mal lavado
Eles querem vigiar
Indexar, punir, catequizar
Fiscal de cu com vocação
De padre, síndico e patrão
Querem nos classificar
Num formulário de boa intenção
Mas a cidade começou a trincar
E ainda cobram documentação
Marla, Marla
O mundo cede e eu cedo a você
Marla, Marla
Pouco afeto, muito prazer
Marla, Marla
Se a cidade ferve, deixa ferver
Marla, Marla
No fim do mundo eu volto pra você
Marla, Marla
Eles julgam pra não se ver
Marla, Marla
A gente peca pra sobreviver
Quinta-feira, grupo dos sem nome
Todo puro quando ninguém consome
Fome de pele, falta de fome
Fé de vitrine, beijo de clone
Um cara falou de transcendência
Com a mão tremendo no celular
Postou gratidão com urgência
E saiu dali sem se importar
Sexta-feira, recaída geral
Todo santo com seu ritual fiscal
Pix, promessa, guru digital
Cura expressa, trauma anal
Você sussurrou no corredor
Que Eros morreu de exposição
Virou vitrine, mercado e clamor
Desejo em alta definição
Eu disse: Amor virou assinatura
Você: Cancela antes de sofrer
A gente fez da própria fissura
Um jeito torto de permanecer
Eles querem vigiar
Quem sangra bonito, quem pode amar
Fiscal de cu com crachá de dor
Fiscalizando até o calor
Querem higienizar
Nosso vício de existir
Mas o sistema começou a tombar
E ninguém quer assumir
Marla, Marla
O mundo cede e eu cedo a você
Marla, Marla
Pouco afeto, muito prazer
Marla, Marla
Se a cidade ferve, deixa ferver
Marla, Marla
No fim do mundo eu volto pra você
Marla, Marla
Eles julgam pra não se ver
Marla, Marla
A gente peca pra sobreviver
Sábado sem grupo, sem santo
Só teu riso rasgando meu quarto
A agonia do Eros no lençol
Dois animais sem Deus, sem farol
Você me chama pelo nome errado
Eu viro mito, ruído, mercado
Tyler gargalha dentro de mim
Marla, não promete o fim
Lá fora a moral posa em retrato
Com legenda sobre empatia
Mas quer sangue barato no prato
Quer nude, quer culpa e auditoria
Quer pureza com dedo em riste
Quer perdão com recibo fiscal
Toda virtude quando insiste
Vira polícia sentimental
Marla, Marla
O mundo cede e eu cedo a você
Marla, Marla
Pouco afeto, muito prazer
Marla, Marla
Se a cidade ferve, deixa ferver
Marla, Marla
No fim do mundo eu volto pra você
Marla, Marla
Eles julgam pra não se ver
Marla, Marla
A gente peca pra sobreviver
Marla, Marla
Fiscal de cu, fiscal de fé
Marla, Marla
Todo santo quer saber quem é
Marla, Marla
Deixa o prédio estremecer
Marla, Marla
O colapso combina com você
Domingo, céu baixo, concreto
Você foi sem fechar o afeto
Segunda eu volto pro porão
Com teu incêndio na respiração
E se perguntarem se era amor
Diz que era pior
Era lúcido
Era clínico
Era nosso



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