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Pentecostes

Newton Jayme

Dançou sem ruído no ventre das águas
Como um sopro antigo antes da primavera
Guardava no caos a semente da vida
Silêncio divino sonhando o amanhã
Preparando um lugar de paz e delícias

Eu serei aquele que serei, disse Deus!

Foi fogo na sarça ardente
No espinho que ardia sem fim
Coluna na noite do povo cansado
Ação que fez da terra seca um jardim
E abriu no deserto um caminho molhado

Era nuvem pousando na Tenda do Encontro
Azeite escorrendo na fronte do ungido
Dedo divino talhando, no monte
Palavras de vida no coração machucado

Passou pelos lábios dos velhos profetas
Vestiu de coragem o jovem Davi
Fez Elias ouvir, ali, no silêncio da pedra
O rumor invisível do eterno Eu Sou

Mas um dia desceu como nunca descera
Não em Sinai coberto de medo e fumaça
Mas sobre homens de carne e miséria
Fazendo do humano sacrário da graça

Ó Vento que escreve no fogo do coração
Rompe as muralhas do homem sem luz
Transforma Babel em linguagem de abraço
E faz do silêncio um anúncio da Cruz

Ó Chama que pairou no sangue da Igreja
Manancial que jorra do trono de Deus
Derrama teu vinho nas veias do mundo
Pentecostes ainda acontece nos céus

Tu foste o pássaro nas águas do Jordão
Repouso imortal nos ombros do Filho
O beijo invisível do Pai sobre o Cristo
O óleo secreto do Santo Messias

Eu serei aquele que serei, disse Deus!

No cenáculo escuro da espera ferida
Maria, Mãe do Senhor, morada de Deus
Guardava a promessa acesa
E o medo dos homens virou profecia
Quando o teu incêndio rasgou a tristeza

As línguas de fogo não queimam a carne
Consagram o homem ao Verbo eterno
Quem bebe do Espírito aprende a ser ponte
E faz da própria alma um céu aberto de amor

Tu és a torrente que brota da Rocha
O selo do Reino, o hálito da vida
O canto escondido nas páginas santas
A seiva divina da videira ferida

Vem como brisa que ninguém domina
Vem como o fogo do altar celestial
E, quando o mundo esquecer teu nome
Acende outra vez o impossível

Vem, Espírito Santo
O outro Paráclito
Convence o mundo do pecado
Derrama os teus
Sete dons e carismas
E renova a face da terra!

Eu serei aquele que serei, disse Deus!

Vem como fogo
Que purifica sem destruir
Como vento que derruba
Os impérios do orgulho
Como rio que atravessa
Desertos interiores
E devolve ao homem
O rosto do primeiro amor

Vem, Espírito Santo! Aleluia!
Teu fogo eterno me ungiu no Amor!
Sou templo vivo do Grande Eu Sou!


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