Quase que eu fui pro buraco
Por pouco não fui morar no porão
Dancei mas não sei não
Tive cuidado
De ter os pés quase sempre no chão
E a cabeça voando como se voa na imaginação
Longe do resto do bando
Mas sempre perto do meu coração

Depois de algum tempo nisso
Indo no fundo e voltando pra ver
Eu me descubro, amor, dentro do vício
Maravilhosamente a renascer
Amando a vida como ama
O entalhador um pedaço de pau
O pescador o seu rio
E o sofredor sua mulher fatal

Hoje com os olhos mais claros
Olhando as coisas como as coisas são
Eu me desenho, amor, como se pinta um quadro novo com o brilho e a cor
De todo homem de trinta
Trinta moleques que o tempo criou
E muito embora eu não sinta
Eu sei que eu sou o que eu fui e o que sou

Tenho almoçado e jantado
Tenho tomado café da manhã
Barra pesada não, muito obrigado
Tenho levado uma vida sã
Tenho tomado algumas
E tenho amado uma mesma mulher
Eu tenho andado sem turma
Mas solitário eu sei que não dá pé

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