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Canção contrária à vida sob a ótica de John

Wendell Soares

E assim me querem entre o sim e não mais canalha
Cumprindo com rigor esse fajuto e falso pesar
Por hora, esquecem que o que sangra aqui é só mortalha
Jamais um passe livre que autoriza alguém entrar

E a vida se vende em começo, meio e fim
Mas te entrega apenas a desgraça e o impossível
Era mesmo necessário que eu ficasse visível
Justamente quando eu nem morava mais em mim?

As coisas passam por nós, e esta passou por cima
E enquanto isso passava eu me senti mais só
Me diz se estava aqui ou se tua obra-prima
Foi mentir que era luz no abismo ao meu redor

Olhar pra dentro e se sentir desinteressado
É como estar perdido e nu, sem reagir
Ver parte dos seus planos um por um rasgados
Enquanto o caos de bolso teve de extinguir

As emoções não seguem direção
Se dobram, dançam, fogem da razão
Voltam em espiral pra mostrar
Que cura exige fé e então vou reclinar

Porque cura é recomeço e nem sempre vale
Tentar um outro ciclo e planejar também
Se a dor que é sua é sua e dos outros cabe
No mesmo espaço onde não habita alguém

Aprendi quem são os meus e acho uma pena
Deixá-los juntos aos outros e trancar a porta
Mas é que neles vive o meu maior dilema
De aceitar que ninguém de verdade se importa

É estranho explicar que até quem era bom
Num arroubo impensado foi um idiota
Ao pensar que podia ler minha melhor nota
Com o talento frouxo de um abiã sem dom

E o que fazer quando tudo ruir?
Como assim vocês sabem ao certo
Viver é recomeçar sem querer
E só que não quero quem não sinto perto

Porque até quem foi necessário
Precisou figurar entre os que eu não escuto
Achou de bom tom me exigir viver o luto
Cobrar que foi negado como fosse um relicário

Ao perder de vez essa versão de mim
Eu também perdi o amor que sempre foi meu guia
Por isso, não me peça nessa galhardia
Seguir com este pedaço que restou em mim

Não esperem que eu vá compartilhar
Eu mal abri a porta e enxerguei só vazio
Mesmo sem afluente, eu consegui ser rio
Mas isso é tudo, eu sequei, nunca vou ser mar

Porque mar é recomeço e por isso transborda
É margem e é tempestade num dia sombrio
Mas se quem me navega me tirou o brio
O que fazer com tanto nó na mesma corda?

Aprendi quem são os meus e acho um desperdício
Deixá-los juntos a quem me soa sempre igual
Mas é que eles me querem como reinício
Sem nunca perceber que não saí do final


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